A banalização da violência nas redes sociais e seus impactos na sensibilidade coletiva

Como a exposição contínua a conteúdos violentos altera nossa percepção e reduz a empatia diante do sofrimento alheio

Presenciar uma cena de violência era algo raro e perturbador. Hoje, basta deslizar o dedo pela tela. Em poucos segundos, surgem vídeos de brigas, humilhações públicas, agressões registradas por celulares e desafios perigosos que circulam entre milhões de visualizações. O que antes causava choque passou a disputar espaço com danças, receitas e memes no mesmo fluxo interminável de conteúdo digital. A violência passou a ser consumida.

Esse fenômeno não pode ser compreendido apenas como um problema moral ou educativo. Ele envolve também processos psicológicos conhecidos pela literatura científica. A psicologia social descreve um efeito chamado dessensibilização, no qual a exposição repetida a estímulos violentos reduz gradualmente a intensidade da resposta emocional diante deles. Em experimentos conduzidos pelo renomado psicólogo Albert Bandura sobre aprendizagem social, já se observava que comportamentos agressivos, quando repetidamente testemunhados, podem tornar-se mais familiares e menos perturbadores.

Pesquisas posteriores sobre violência midiática, conduzidas por autores como Craig Anderson e Nicholas Carnagey, indicam que a repetição de imagens agressivas tende a reduzir respostas fisiológicas associadas à empatia e ao desconforto diante do sofrimento alheio. Em termos simples, quanto mais a violência é vista, menos ela surpreende.

Esse mecanismo não significa que a exposição digital transforme automaticamente indivíduos em pessoas violentas. O que a ciência sugere é algo mais sutil: a repetição pode alterar a forma como a violência é percebida, diminuindo sua capacidade de provocar repulsa imediata. Em outras palavras, aquilo que antes parecia intolerável pode gradualmente tornar-se normal.

Esse contexto ganha relevância quando lembramos que crianças e adolescentes crescem hoje em um ambiente informacional radicalmente diferente do que existia há apenas duas décadas. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil, a maioria dos jovens entre 9 e 17 anos acessa a internet diariamente e permanece conectada por várias horas. Nesse ecossistema digital, conteúdos de natureza muito distinta — educação, humor, conflito ou sofrimento — coexistem na mesma sequência de vídeos ou postagens.

As plataformas digitais, organizadas por algoritmos de recomendação, priorizam conteúdos capazes de gerar reação intensa do público. A lógica é simples: quanto maior o engajamento, maior a visibilidade. Nesse cenário, imagens chocantes, episódios de conflito ou situações de risco frequentemente ganham destaque, não necessariamente por seu valor informativo, mas pela capacidade de capturar atenção.

Diante desse panorama, o risco não está apenas na presença da violência, que sempre fez parte da história humana, mas na forma como ela passa a ser incorporada ao cotidiano informacional de uma geração inteira. Quando agressões, humilhações e situações de sofrimento circulam repetidamente como entretenimento ou curiosidade digital, a sensibilidade coletiva pode ser gradualmente deslocada. O perigo é que, pouco a pouco, aquilo que deveria provocar indignação passe apenas a provocar mais um gesto automático de rolagem na tela.

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Por Sheron Mendes

Bióloga, especialista em Neurociência do Comportamento, professora dos cursos de pós-graduação em Educação na UNINTER

Artigo de opinião

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