Adoecimento Mental no Trabalho: Como Urgência, Carga Emocional e Pressão por Tempo Moldam o Risco Psicossocial
Entenda os principais modelos organizacionais que impulsionam o desgaste psicológico e os impactos para as empresas brasileiras
O adoecimento mental relacionado ao trabalho tem crescido de forma consistente no Brasil e já figura entre os principais desafios contemporâneos da relação entre empresas e trabalhadores. Dados públicos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), analisados pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), mostram que os afastamentos por transtornos mentais passaram de cerca de 169 mil em 2017 para mais de 460 mil em 2024, um aumento superior a 170% no período. Entre os diagnósticos mais recorrentes estão os transtornos ansiosos, episódios depressivos, transtornos depressivos recorrentes e reações ao estresse grave. Na prática, isso significa que ansiedade, depressão e estresse intenso estão entre os principais fatores que retiram trabalhadores de suas atividades, evidenciando o impacto crescente dos riscos psicossociais nas organizações.
Apesar do volume elevado, a maior parte desses casos não é formalmente caracterizada como doença ocupacional, o que revela uma lacuna entre o adoecimento registrado e seu reconhecimento institucional. O risco psicossocial se concentra em modelos específicos de trabalho. Ao cruzar os dados com a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), por meio da matriz do Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário (NTEP), é possível identificar maior concentração de afastamentos em atividades como atendimento hospitalar, serviços de assistência social, transporte rodoviário de carga e passageiros, teleatendimento e indústria de transformação.
Mais do que uma distribuição aleatória, os dados indicam que o risco psicossocial está diretamente associado à forma como o trabalho é estruturado. Modelos organizacionais com alta pressão operacional, carga emocional contínua, exigência de ritmo intenso e baixa autonomia apresentam maior probabilidade de gerar adoecimento ao longo do tempo. Os afastamentos representam apenas a fase final de um processo de desgaste progressivo. Eles são o que podemos chamar de indicadores tardios. O adoecimento começa muito antes, quando o trabalhador passa a operar sob pressão constante, sem espaço real de recuperação psicológica. O problema não está apenas no volume de trabalho, mas na forma como ele é organizado e sustentado ao longo do tempo.
A partir da análise dos padrões de afastamento, é possível identificar três arquétipos organizacionais com maior incidência de riscos psicossociais. Esses modelos não se limitam a setores específicos, mas refletem formas recorrentes de organização do trabalho.
O primeiro é o modelo baseado em urgência permanente, comum em atividades como teleatendimento, operações comerciais e áreas administrativas intensivas. Nesse contexto, a urgência deixa de ser um evento pontual e passa a estruturar a rotina. O trabalhador opera em estado contínuo de alerta, com pressão constante por resposta imediata, metas sucessivas e pouco tempo psicológico para recuperação, o que eleva significativamente o risco de ansiedade e esgotamento emocional.
O segundo arquétipo está associado ao trabalho emocionalmente intenso, presente principalmente em setores como saúde, assistência social, educação em contextos críticos e atendimento público sob pressão. Nesses ambientes, o desgaste está relacionado à exposição contínua ao sofrimento humano, à necessidade de tomar decisões com impacto relevante e à operação sob condições de escassez. Esse padrão aumenta a vulnerabilidade a quadros depressivos, fadiga emocional e estresse crônico.
O terceiro padrão identificado é o modelo em que o tempo se torna um fator estrutural de pressão, comum em atividades como transporte, logística, armazenamento, operações urbanas e serviços com SLAs rígidos. Jornadas irregulares, exigência de velocidade constante, baixa margem de erro e pressão por produtividade criam um ambiente de tensão permanente, que compromete o equilíbrio emocional e aumenta o risco de adoecimento ao longo do tempo.
Esses padrões formam uma espécie de geografia organizacional do risco psicossocial. O risco não está apenas no setor, mas na lógica operacional. Quando a urgência é permanente, quando o trabalho exige carga emocional contínua ou quando o tempo opera como fator de pressão estrutural, o sistema passa a gerar desgaste de forma previsível. O afastamento é apenas o ponto visível de um processo que já estava em curso.
Os efeitos do risco psicossocial não se restringem aos afastamentos formais. Antes disso, já impactam diretamente o funcionamento das organizações, com efeitos como presenteísmo, redução de desempenho, aumento de erros operacionais, deterioração do clima organizacional, perda de lideranças intermediárias e aumento do turnover. A empresa começa a perder eficiência muito antes do primeiro afastamento formal. O risco psicossocial reduz a capacidade operacional, compromete a previsibilidade e afeta diretamente a sustentabilidade dos resultados.
Este cenário reforça a necessidade de tratar a saúde mental como parte estruturante da gestão organizacional, incorporando diagnóstico e prevenção de forma sistemática. Em um período de transição regulatória que exige o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e prevê aplicação de multas e autos de infração pelo Ministério do Trabalho e Emprego, o tema deve ganhar atenção redobrada das empresas. Além da importância intrínseca para o bem-estar dos trabalhadores, a gestão eficaz dos riscos psicossociais é fundamental para a sustentabilidade e compliance das organizações.
Por Ricardo Queiroz
CEO da Flora Insights, especialista em diagnóstico e gestão de riscos psicossociais ocupacionais
Artigo de opinião



