A Ascensão das Médicas Vasculares e seu Impacto na Saúde da Mulher

Como a crescente presença feminina na Cirurgia Vascular transforma o cuidado e a representatividade na medicina especializada

No mês em que o mundo reconhece as conquistas femininas, é oportuno refletir sobre o avanço consistente das mulheres em áreas de alta complexidade da medicina, como a Angiologia e a Cirurgia Vascular. No Brasil, desde o final da primeira década deste século, há mais mulheres do que homens ingressando na Medicina. Em 2024, do total de formandos, 60% eram mulheres. A atuação nas especialidades cirúrgicas, entretanto, ainda é predominantemente masculina, embora a participação feminina esteja aumentando gradualmente.

Segundo dados da série Demografia Médica no Brasil, há uma tendência clara de crescimento na proporção de cirurgiãs vasculares, com a participação feminina mais que dobrando em menos de 20 anos.

Ano | Mulheres na Cirurgia Vascular
2005 | 10–12%
2010 | 15–18%
2015 | 20–23%
2020 | 25–27%
2023 | 27–28%

Isso faz da Cirurgia Vascular uma das carreiras cirúrgicas com maior presença feminina no Brasil:
– Cirurgia Vascular: 27,6% mulheres
– Cirurgia Plástica: 25%
– Cirurgia Geral: 23%
– Neurocirurgia: 9%
– Ortopedia: 7%

No futuro próximo, o avanço das mulheres na Cirurgia Vascular tende a continuar em ascensão. Ainda segundo a Demografia Médica no Brasil, havia em 2024 aproximadamente 395 médicos em residência de Cirurgia Vascular no país. Estudos e levantamentos associados à especialidade indicam que aproximadamente 35–40% dos residentes são mulheres.

Ao longo da minha trajetória na especialidade, iniciada em 1999, quando ingressei na residência da Disciplina de Cirurgia Vascular e Endovascular do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, instituição à qual permaneço vinculado até os dias de hoje, tenho testemunhado essa revolução na representatividade das mulheres na especialidade. São muitas residentes e médicas assistentes que têm se destacado na assistência, no ensino e na pesquisa deste e de outros serviços de formação técnica e acadêmica por todo o país.

Se há um número crescente de angiologistas e cirurgiãs vasculares cuidando, há também muitas mulheres necessitando de cuidados com a saúde vascular. Considerando que a idade faz aumentar o risco de doenças circulatórias, a maior expectativa de vida das mulheres é parte da explicação para a predominância do sexo feminino na prevalência de algumas dessas enfermidades.

Fatores hormonais e gravidez fazem com que até 70% dos pacientes com insuficiência venosa sejam do sexo feminino. A proporção de mulheres vítimas de doenças arteriais também tem apresentado crescimento, de modo que, em populações idosas, muitas séries mostram leve predominância feminina. O climatério, período de transição entre a fase reprodutiva e a fase pós-menopausa, é um dos fatores de risco para as doenças cardiovasculares.

A maior participação das mulheres no exercício da Angiologia e da Cirurgia Vascular é fundamental em todos os aspectos que regem nossa especialidade. Essa visão é muito viva na Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular – Regional São Paulo (SBACV-SP), onde essa evolução se reflete na presença cada vez mais ativa de médicas em comissões científicas, atividades acadêmicas e espaços de decisão. Na atual gestão da SBACV-SP, metade das diretorias é comandada por mulheres. Sempre que o mérito imperar como critério de seleção, a mulher tem espaço garantido.

Neste mês da mulher, a reflexão vai além das homenagens. Homenagens são importantes, mas ações concretas são muito mais. O reconhecimento à capacidade profissional da mulher e, mais ainda, o respeito à sua autonomia e independência, são valores sagrados e indissociáveis dos princípios mais básicos de direitos humanos. Que tenhamos a coragem de defender e disseminar esses valores não apenas neste mês simbólico, mas durante todos os dias de nossas vidas.

A

Por Antonio Eduardo Zerati

Prof. Dr., Cirurgião Vascular, presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular – Regional São Paulo (SBACV-SP)

Artigo de opinião

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