Não é ego. É medo de se tornar descartável.
O etarismo no entretenimento revela um problema maior: ninguém sabe mais quando poderá parar.
Nos últimos dias, uma declaração do ator Marcos Winter reacendeu o debate sobre etarismo na televisão. A crítica à escolha de influenciadores para papéis em novelas levantou uma questão incômoda: profissionais experientes estão sendo substituídos?
Mas talvez essa não seja a pergunta certa.
A discussão não é apenas sobre atores. É sobre todos nós.
O mito da aposentadoria tranquila acabou
Durante décadas, existia uma narrativa quase confortável:
Você trabalhava.
Construía reputação.
Envelhecia.
Reduzia o ritmo.
E se aposentava.
Hoje, essa linha reta virou um labirinto.
A longevidade aumentou.
O custo de vida explodiu.
A estabilidade diminuiu.
Parar de trabalhar virou privilégio.
O novo etarismo é silencioso
Ele não diz “você está velho”.
Ele diz:
-
“Procuramos um perfil mais jovem.”
-
“Buscamos alguém mais conectado ao digital.”
-
“Precisamos de alguém com energia nova.”
A substituição não é explícita.
É estratégica.
E isso não acontece só na televisão.
Acontece no mercado corporativo, na advocacia, no jornalismo, na publicidade, na tecnologia.
O verdadeiro medo não é perder espaço. É perder segurança.
Existe uma diferença enorme entre ego ferido e insegurança estrutural.
O que muitos profissionais sentem hoje não é apenas vaidade.
É ansiedade econômica.
Se antes era possível planejar uma saída digna, hoje a pergunta virou outra:
Até quando vou precisar correr?
Novela não é teatro — e o mercado não é mais o mesmo
A televisão mudou.
O público mudou.
O modelo de negócio mudou.
Influenciadores entram com audiência própria.
Produtoras buscam reduzir risco financeiro.
Isso não elimina talento.
Mas altera o critério de entrada.
O problema não é a existência de novas portas.
É a redução das antigas.
Reinvenção deixou de ser escolha
Aprender algo novo aos 45, 50 ou 60 anos não é mais diferencial.
É sobrevivência.
O mundo profissional encurtou o ciclo de relevância e alongou o tempo de vida.
Essa equação gera tensão.
E essa tensão aparece como debate artístico, quando na verdade é econômica.
Estamos preparados para envelhecer profissionalmente?
Talvez essa seja a pergunta que realmente importa.
Vivemos mais.
Mas o mercado não aprendeu a absorver essa longevidade.
O resultado?
Uma geração inteira que não pode parar, mas também não encontra espaço proporcional à sua experiência.
E isso não é drama individual.
É sintoma estrutural.
O bonde não passou. Ele mudou de trilho.
O futuro não será de jovens contra experientes.
Será de quem souber combinar maturidade com adaptação.
A reinvenção não é ameaça.
É estratégia.
E talvez o verdadeiro luxo do nosso tempo não seja fama, seguidores ou visibilidade.
Talvez seja estabilidade.



