Endividamento Familiar no Brasil: Como Reorganizar as Finanças no Primeiro Trimestre
Com 77% das famílias endividadas, um plano de 90 dias pode ser a chave para retomar o controle financeiro e evitar o uso excessivo de crédito caro.
Mesmo após o pico de despesas do início do ano, cerca de 77% das famílias brasileiras estão endividadas, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC). O impacto de impostos, gastos escolares e inflação acumulada continua pressionando o orçamento no primeiro trimestre e prolongando o desequilíbrio financeiro.
O quadro é agravado pela concentração de compromissos financeiros no início do ano e pela ausência de planejamento prévio. Janeiro reúne despesas previsíveis, mas pouco organizadas. Quando o orçamento chega pressionado e sem estratégia, qualquer gasto extra vira desequilíbrio.
Impostos como IPTU e IPVA, somados às despesas educacionais, costumam consumir uma parcela relevante da renda logo nos primeiros meses do ano. O problema não está apenas no volume de gastos, mas na forma como eles são distribuídos ao longo do tempo. Pagar tudo ao mesmo tempo, sem preparo, compromete o fluxo de caixa da família e amplia o uso do crédito caro.
Mesmo com sinais de desaceleração inflacionária, o orçamento doméstico segue pressionado. A renda não acompanhou na mesma velocidade o aumento dos custos fixos, o que explica por que o endividamento permanece elevado mesmo fora de períodos de crise aguda.
Diante desse cenário, é fundamental adotar um método básico de organização do orçamento, dividido em três grupos: despesas fixas mensais, como moradia e contas essenciais; despesas variáveis, como alimentação fora de casa e lazer; e gastos anuais ou sazonais, como impostos e escola. Separar essas camadas permite enxergar com clareza onde está o desequilíbrio e onde é possível ajustar.
A partir desse diagnóstico, um plano de 90 dias pode ajudar a recuperar a previsibilidade financeira. No primeiro mês, o foco deve ser mapear gastos e renegociar dívidas mais caras. No segundo, reorganizar hábitos de consumo e criar uma reserva mínima. No terceiro, estabelecer metas de médio prazo. É um processo gradual, pois tentar resolver tudo de uma vez costuma gerar frustração e abandono do planejamento.
Após a reorganização inicial das contas, o consórcio surge como alternativa para famílias que desejam planejar aquisições sem recorrer a financiamentos com juros elevados. A principal vantagem está no efeito disciplinador da modalidade. O consórcio funciona como uma poupança com objetivo definido, com parcelas que cabem no orçamento e ajudam a manter o compromisso mensal sem pressionar as finanças.
No entanto, o consórcio não deve ser usado como solução para o endividamento, mas como etapa seguinte do planejamento. Primeiro é preciso colocar a casa em ordem. Depois, faz sentido assumir um compromisso que ajude a construir patrimônio sem desorganizar o orçamento.
Famílias que utilizam o primeiro trimestre para reorganizar as finanças tendem a tomar decisões mais racionais ao longo do período. Transformar o início do ano em fase de ajuste, e não apenas de sobrevivência, dá fôlego para sair do ciclo de aperto financeiro e retomar projetos com mais segurança.
Por Leonardo Baldez Augusto
economista, educador financeiro e consultor empresarial; formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU); pós-graduado em Finanças e Estratégias Empresariais pela Faculdade de Gestão e Negócios (FAGEN) da UFU; coordenador de programas de assessoria de crédito; fundador do ISF Crédito Orientado (Instituto de Solução Financeira)
Artigo de opinião



