Como transformar o autocuidado em prática contínua nas empresas
Quatro atitudes essenciais para integrar a regulação emocional à rotina corporativa e melhorar a saúde mental no trabalho
Relatórios da Organização Mundial da Saúde indicam que ansiedade e depressão estão entre as principais causas de incapacidade no mundo, com impacto direto sobre produtividade, absenteísmo e afastamentos do trabalho. No Brasil, dados do Ministério da Saúde e do INSS mostram crescimento contínuo das licenças relacionadas a transtornos mentais. Apesar do avanço no acesso a conteúdos e iniciativas de bem-estar, a mudança de comportamento nas empresas não acompanha esse movimento. O principal entrave segue sendo a constância.
O excesso de soluções pontuais e de curto prazo compromete a efetividade das ações. Em contextos extremos, como escaladas e ambientes de alta pressão, onde controle emocional, leitura do corpo e decisão rápida são determinantes, não existe prática ocasional. No trabalho, a lógica é a mesma, ainda que o risco não seja físico.
A fragmentação das rotinas corporativas e a cultura de urgência permanente ajudam a explicar a dificuldade de manter práticas contínuas. Levantamentos indicam queda de engajamento e desempenho entre profissionais submetidos a níveis elevados de estresse. Iniciativas adotadas apenas em momentos de crise tendem a gerar alívio momentâneo, mas pouco impacto no médio prazo.
No ambiente empresarial, a ausência de estratégias estruturadas de regulação emocional também se traduz em custos objetivos. A Organização Internacional do Trabalho estima perdas bilionárias anuais associadas ao estresse ocupacional, considerando absenteísmo, presenteísmo e redução de produtividade. Programas implementados como ações isoladas costumam registrar baixa adesão e dificuldade de mensuração de resultados.
Experiências testadas em ambientes de pressão real mostram que práticas contínuas apresentam maior eficácia quando integradas à rotina. Quando o cuidado deixa de ser um evento pontual e passa a funcionar como treino recorrente, surgem ganhos em clareza de decisão, redução de conflitos e maior capacidade de lidar com pressão. O foco não é desempenho físico, mas regulação emocional aplicada ao trabalho.
Para indivíduos e empresas, o ponto de partida costuma ser a adoção de práticas simples, de curta duração e alta frequência. Técnicas de respiração associadas a movimentos acessíveis tendem a apresentar maior aderência quando incorporadas ao cotidiano. Soluções genéricas, como aplicativos ou conteúdos avulsos, ampliam o acesso, mas enfrentam dificuldade de sustentação ao longo do tempo.
Na contratação de profissionais ou programas especializados, a orientação é avaliar metodologia, experiência prática e adaptação à realidade corporativa. Abordagens validadas em contextos de alta pressão, com acompanhamento contínuo e expectativas bem definidas, tendem a gerar resultados mais consistentes. Autocuidado não é resposta emergencial, é treino. Quando isso fica claro desde o início, a chance de adesão aumenta.
Especialistas avaliam que a constância depende menos de motivação individual e mais de estrutura organizacional. Algumas orientações contribuem para aumentar a aderência ao longo do tempo:
– Priorizar práticas simples e de curta duração, que possam ser incorporadas à rotina sem grandes ajustes operacionais.
– Associar as práticas a horários fixos ou a gatilhos do dia a dia, como início ou encerramento do expediente.
– Evitar soluções genéricas e sem acompanhamento, que tendem a perder efeito no médio prazo.
– Encarar o autocuidado como treino contínuo, e não como resposta pontual a situações de crise.
A insistência em soluções rápidas desvia o foco do que sustenta resultados no longo prazo. Constância não é repetir por obrigação, é criar uma relação prática com o corpo e com a rotina. Quando isso acontece, o impacto aparece de forma consistente.
Por Claudia Faria
professora de yoga, palestrante especializada em regulação emocional aplicada à tomada de decisão, criadora do método Yoga Adventure, formada em Medicina Veterinária, escaladora, atua há mais de 20 anos com foco em respiração, regulação emocional e corpo sob pressão.
Artigo de opinião



