Quando o básico vira luxo: o desafio social do crescimento do mercado de beleza no Brasil

O acesso a produtos essenciais de higiene e cuidados pessoais se torna cada vez mais restrito, evidenciando desigualdades e impactos na qualidade de vida do consumidor

O avanço do mercado de beleza no Brasil escancara uma contradição que já não pode ser tratada como detalhe. Ao mesmo tempo em que o autocuidado se consolida como parte essencial da rotina da população, o acesso a produtos de qualidade torna-se progressivamente mais restrito. Em um país marcado por desigualdade estrutural e perda de poder de compra, a transformação do básico em luxo não é apenas uma questão de consumo, mas um reflexo direto de escolhas econômicas, estratégias de mercado e ausência de um debate mais profundo sobre o papel social da indústria da beleza.

Os dados confirmam a centralidade desse setor no orçamento das famílias. Segundo a pesquisa Cosmetic Innovation, realizada pela IPC Maps, os gastos com higiene e cuidados pessoais devem alcançar R$ 242,3 bilhões até o fim de 2025, crescimento de 11,2% em relação a 2024. Esse aumento não pode ser atribuído apenas à sofisticação do consumo, mas também à inflação de custos e à elevação dos preços finais. Um levantamento da Koin mostra que 53,7% dos brasileiros gastam entre R$ 151 e R$ 350 por mês com produtos de beleza, valor expressivo em um contexto de renda média pressionada, especialmente entre as classes C e D, que concentram grande parte desse consumo.

Esse comportamento é sustentado por uma mudança cultural clara. De acordo com pesquisa do SPC Brasil em parceria com a CNDL, 65,7% dos entrevistados afirmam que cuidar da beleza não é luxo, mas uma necessidade cotidiana. O autocuidado passou a ser associado à saúde, ao bem-estar emocional e à autoestima, além de influenciar relações sociais e oportunidades profissionais. Em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo e informal, a aparência e a percepção de cuidado pessoal também operam como capital simbólico, ampliando a relevância desses produtos na vida prática do consumidor.

Parte do setor, no entanto, defende que a elevação de preços é consequência natural da busca por inovação, qualidade superior e matérias-primas mais seguras. Esse argumento ignora um ponto central. Em 2025, uma pesquisa da Neogrid mostrou que, mesmo sob forte pressão inflacionária, os brasileiros mantiveram estável o gasto médio com itens de higiene e beleza. Isso indica não apenas resiliência da categoria, mas um ajuste forçado do consumidor, que passa a abrir mão de outras despesas para preservar o autocuidado. Nesse cenário, a qualidade não se torna mais acessível, apenas mais cara, deslocando o problema para o orçamento das famílias.

O risco desse movimento é aprofundar uma lógica excludente dentro de um mercado que se apresenta como democrático. Quando produtos essenciais passam a ser posicionados como premium, o discurso da escolha individual perde força diante da realidade econômica. A ausência de alternativas acessíveis de qualidade empurra parte da população para produtos inferiores ou para a redução do consumo, o que impacta diretamente saúde, autoestima e qualidade de vida. O luxo, nesse caso, não está na sofisticação, mas na possibilidade de manter o básico com padrão adequado.

Recolocar o acesso à qualidade no centro do debate do mercado de beleza é uma urgência econômica e social. O crescimento do setor, por si só, não é indicativo de progresso se ele ocorre à custa da exclusão. Em um país onde o autocuidado já se consolidou como necessidade, o desafio está em construir um modelo de mercado que equilibre inovação, rentabilidade e acesso. Caso contrário, o básico continuará virando luxo, e o preço desse distanciamento será pago, silenciosamente, pelo consumidor.

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Por Camilla Clemence

gerente de marketing da Soft Hair, profissional com mais de dez anos de experiência nos setores de bens de consumo, alimentos e cosméticos, com foco em branding, inovação, posicionamento de marca e lançamentos de produtos, experiência em estratégias de marketing 360°, liderança de equipes e gestão de parceiros estratégicos, com base em inteligência de mercado

Artigo de opinião

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