Como a Menopausa Transforma a Pele e o Que Fazer a Respeito

Entenda as mudanças hormonais, celulares e microbianas que afetam a pele na menopausa e as melhores estratégias para cuidar dela com ciência e eficácia

Você está na menopausa e percebe que o creme que funcionava há dois anos parou de fazer efeito? Que a pele parece fina como papel? Ou que o rosto está mais flácido do que o esperado para sua idade? Não é impressão, nem simplesmente “questão de idade”. O estrogênio — hormônio associado à menstruação e fertilidade — é, na verdade, o grande arquiteto da pele feminina. Ele está presente nas células que produzem colágeno, formam a barreira protetora, geram a oleosidade natural e até nos vasos que nutrem a pele internamente. Quando o estrogênio cai, tudo isso diminui rapidamente.

Nos primeiros cinco anos após o início da menopausa, a pele pode perder até 30% do seu colágeno total — e esse número não depende da idade cronológica, mas do tempo desde a menopausa. Uma mulher com menopausa precoce pode ter a mesma perda de colágeno que outra mais velha. Isso mostra que a menopausa não é simplesmente envelhecimento, mas uma transição em que o corpo muda seu funcionamento, e a pele é o primeiro órgão a refletir essa mudança. O resultado é um efeito dominó: a pele fica mais fina (menos colágeno), mais seca (menos oleosidade e ácido hialurônico), mais sensível (barreira enfraquecida), mais flácida (fibras elásticas desorganizadas) e cicatriza mais lentamente (fluxo sanguíneo reduzido na derme).

Além disso, existe outro vilão pouco conhecido: as células senescentes, ou “células-zumbi”. São células que pararam de funcionar, mas não morrem, permanecendo no tecido e liberando substâncias inflamatórias que prejudicam as células vizinhas, degradando o colágeno e aumentando o estresse oxidativo. O estrogênio tem papel protetor contra o acúmulo dessas células, e sua queda acelera esse processo. Pesquisas recentes apontam para substâncias chamadas senolíticos e senomórficos, que eliminam ou silenciam essas células, algumas delas naturais, como fisetina (em morangos e maçãs) e apigenina (do chá de camomila). Ainda em fase de pesquisa, essa abordagem reforça que não basta repor o que se perdeu; é preciso também limpar o que está inflamando.

Outro aspecto importante é o microbioma da pele, o ecossistema de microrganismos que vivem na superfície cutânea e mudam com a menopausa. Mulheres pós-menopausa apresentam menos Lactobacillus na pele facial, o que afeta a saúde cutânea, semelhante ao que ocorre na mucosa vaginal. O status menopausal é um indicador melhor do que a idade para prever o perfil microbiano da pele. Tratar a pele sem considerar seu microbioma é tratar metade do problema. Produtos agressivos com muitos ingredientes antibacterianos podem piorar a situação. O futuro da dermatologia menopausal passa por cuidar também dessas bactérias benéficas.

A queixa mais comum na menopausa é a pele seca, que não se resolve apenas com mais hidratante. Essa secura é fisiopatológica, causada por múltiplos fatores simultâneos: queda do ácido hialurônico (que retém água na pele), menor produção de óleo pelas glândulas sebáceas, epiderme mais fina e barreira menos eficiente, além da desorganização do microbioma que reduz espécies que mantêm a hidratação e acidez da pele. O tratamento eficaz deve agir em camadas: reconstruir a barreira com emolientes e limpeza suave, reter a água com ácido hialurônico tópico e, quando possível, tratar a causa hormonal.

Quanto aos tratamentos que funcionam, é importante separar o que tem evidência científica forte do que é promissor ou ainda experimental:

Com evidência forte:
– Retinoides (tretinoína, retinol) são padrão-ouro para estimular a produção de colágeno, mas a pele menopausal pode ser sensível, exigindo uso gradual e hidratação intensa.
– Vitamina C, além de antioxidante, é essencial para a síntese de colágeno. Versões estabilizadas são indicadas para peles sensibilizadas.
– Niacinamida (vitamina B3) é versátil e suave, estimulando a produção de ceramidas e fortalecendo a barreira cutânea.
– Ácido hialurônico em diferentes pesos moleculares combina proteção superficial e hidratação profunda.
– Colágeno hidrolisado oral (2,5 a 10 g/dia) tem comprovação científica para melhorar hidratação, elasticidade e firmeza.
– Peptídeos atuam como mensageiros para estimular fibroblastos, com efeito potencializado pela vitamina C.

Promissor (necessita mais pesquisas):
– Bakuchiol, conhecido como “retinol botânico”, melhora rugas e pigmentação com menos irritação e pode atuar como fitoestrógeno.
– Fitoestrógenos tópicos, como genisteína da soja, aumentam colágeno e ácido hialurônico sem efeitos sistêmicos, embora com potência menor que estrogênio tópico.

Em desenvolvimento:
– Senolíticos e senomórficos para eliminar ou silenciar células-zumbi.
– Pré e pós-bióticos específicos para o microbioma da pele madura.

Essas novidades são promissoras, mas ainda não indicam automedicação. A menopausa é um momento de transformação profunda da pele, que exige compreensão das causas e tratamentos integrados, respeitando a ciência e as necessidades individuais.

Cuidar da pele na menopausa é cuidar da saúde integral, com honestidade sobre o que funciona e atenção às mudanças invisíveis que acontecem sob a superfície.

I

Por Isabel Martinez

médica

Artigo de opinião

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