Canetas emagrecedoras e o impacto na identidade corporal e saúde mental
O uso crescente de medicamentos para emagrecimento revela desafios emocionais e a necessidade de cuidado psicológico integrado
O uso de medicamentos para emagrecimento pertencentes à classe dos agonistas do receptor de GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, cresceu de forma significativa nos últimos anos. Desenvolvidos para o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, esses fármacos passaram a ser utilizados também por pessoas sem indicação clínica formal, impulsionadas por demandas estéticas e sociais relacionadas ao corpo.
Em março de 2024, um estudo publicado na revista científica Scientific Reports, do grupo Nature, analisou dados de mais de 160 mil pacientes atendidos em sistemas de saúde dos Estados Unidos e identificou associação entre o uso de agonistas de GLP-1 e maior incidência de desfechos psiquiátricos, como depressão, ansiedade e ideação suicida, quando comparados a indivíduos que não utilizaram essas medicações. Os autores do trabalho destacam que os resultados não estabelecem relação causal direta, mas indicam a necessidade de monitoramento psicológico durante o tratamento, sobretudo em pessoas com histórico de sofrimento psíquico ou vulnerabilidade emocional.
Na prática clínica, observo um fenômeno que extrapola estatísticas. Tenho percebido um número maior de pessoas extremamente magras, algumas com sinais claros de anorexia, tanto na clínica quanto em ambientes como academias. A discussão não pode se restringir aos efeitos metabólicos das medicações. Quando digo que essas canetas estão sequestrando nossa identidade, falo sobre pessoas que passam a se reconhecer apenas pelo tamanho do próprio corpo, como se toda a existência fosse reduzida a essa métrica.
Muitos pacientes demonstram perda de referência sobre o que é um corpo funcional para si. Vejo pessoas que perdem a mão, não sabem mais parar porque já se perderam de si mesmas, olham no espelho e não conseguem reconhecer a própria realidade corporal. Esse movimento pode estar ligado a processos psíquicos regressivos. Em alguns casos, aparece um retorno simbólico ao corpo infantil, um corpo pequeno, que comunica necessidade de cuidado. É um pedido de socorro que não consegue ser formulado em palavras.
Além dos impactos emocionais, sinais físicos começam a aparecer com frequência, como queda de cabelo, fraqueza e sensação persistente de mal-estar. Autoridades de saúde do Reino Unido emitiram recentemente um alerta sobre relatos de pancreatite aguda associados ao uso de agonistas de GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, reforçando a importância de acompanhamento médico e atenção a sintomas como dor abdominal intensa, náuseas e vômitos.
O emagrecimento acelerado, quando ocorre sem elaboração emocional, tende a intensificar conflitos prévios. A medicação não cria o sofrimento, mas pode amplificar aquilo que já estava presente e sem espaço de escuta. Defendo que intervenções que modificam de forma intensa o peso corporal deveriam incluir avaliação psicológica sistemática. Investigar a relação da pessoa com comida, controle, autoestima e imagem corporal precisa fazer parte do processo terapêutico.
Vivemos um período em que dores emocionais são convertidas em projetos corporais. Quando transformamos angústia em meta de peso, deixamos de escutar o que está sendo comunicado por trás desse movimento. A discussão sobre essas medicações precisa incluir essa dimensão.
Por Maria Klien
Psicóloga, atua na investigação dos distúrbios ligados ao medo e à ansiedade, com prática clínica integrando métodos tradicionais e complementares, empreendedora na área de recursos terapêuticos para saúde psíquica
Artigo de opinião



