Liberdade e Disciplina: O Desafio da Concentração na Educação Superior
Como a falta de preparo formativo transforma a liberdade em distração e compromete o futuro dos jovens
Algumas universidades privadas começaram a proibir o uso de celulares durante as aulas. A medida gerou reações imediatas. Uns chamam de autoritarismo. Outros defendem como necessidade. Mas talvez estejamos olhando para o lugar errado.
O debate não é sobre tecnologia. É sobre educação, não a educação formal da universidade, mas aquela que aprendemos antes dela: em casa, na convivência e na forma como fomos ensinados a lidar com limites.
Liberdade não nasce pronta. Ela se aprende. Aprende-se quando a criança entende que não pode ter tudo na hora que quer. Quando descobre que esforço vem antes de recompensa. Quando percebe que responsabilidade não depende de fiscalização constante.
Universidade é espaço de aprofundamento intelectual. Não deveria ser o lugar onde alguém aprende, pela primeira vez, que foco importa. Se um jovem precisa que a instituição o impeça de usar o celular para conseguir prestar atenção, talvez o problema não esteja na regra — esteja no processo formativo anterior.
Vivemos uma cultura do imediato. Tudo é rápido, curto, estimulante. Redes sociais são projetadas para capturar atenção. O prazer vem em segundos. O esforço, quase nunca é exigido. Mas construir futuro é o oposto disso.
Sem autocontrole, sem disciplina interna e sem capacidade de concentração, liberdade vira distração permanente. E distração permanente compromete projetos de vida.
Chamamos isso hoje de “soft skills”: autonomia, responsabilidade, gestão do tempo, foco. Mas essas competências não surgem por decreto. São fruto de educação familiar, convivência social e exemplos cotidianos.
Um jovem que sempre teve tudo à mão, que nunca precisou esperar, que nunca enfrentou frustração, tende a ter mais dificuldade em lidar com ambientes que exigem concentração e esforço. Não por maldade. Por falta de treino.
Os números ajudam a dimensionar o problema. A evasão no ensino superior brasileiro é elevada, em muitos cursos, mais da metade dos ingressantes não conclui a graduação. Parte dessa desistência tem razões econômicas evidentes. Mas há também um componente formativo: estudantes que chegam à universidade sem base sólida, sem disciplina de estudo e sem preparo emocional para sustentar um projeto de longo prazo tendem a abandonar o caminho diante das primeiras dificuldades.
Proibir celulares pode ser medida paliativa. O ideal seria que ela fosse desnecessária. A verdadeira questão não é tecnológica nem institucional. É formativa.
Isso revela que a discussão sobre celular em sala de aula é apenas a superfície de algo maior. Não se trata de controle institucional, mas de preparação humana para enfrentar esforço, frustração e responsabilidade.
Educar para a liberdade é ensinar que escolha tem consequência. Que atenção é recurso valioso. Que o futuro não se constrói em atalhos.
Liberdade sem responsabilidade é apenas impulso. Liberdade com maturidade é projeto de vida, e começa muito antes da universidade.
Por Ademar Batista Pereira
Presidente do Instituto Destino Brasil
Artigo de opinião



