A Importância da Espiritualidade na Medicina Contemporânea
Como resgatar a dimensão humana no atendimento médico diante da mecanização e exaustão dos profissionais de saúde
A espiritualidade na medicina vai muito além da religiosidade tradicional; ela representa uma dimensão fundamental que ajuda as pessoas a encontrarem sentido e coragem diante dos desafios e sofrimentos inerentes à condição humana. Em tempos recentes, especialmente durante a pandemia da Covid-19, essa dimensão foi colocada à prova, evidenciando a sobrecarga dos profissionais de saúde e a progressiva mecanização do atendimento médico.
Durante a pandemia, médicos e enfermeiros enfrentaram jornadas exaustivas e riscos constantes, muitas vezes sem a estrutura adequada para exercer suas funções. Esse cenário contribuiu para que os pacientes fossem vistos mais como órgãos, números e diagnósticos do que como seres humanos em sua totalidade. O olhar humano, essencial para o cuidado integral, acabou ficando em segundo plano.
Além disso, o sistema de saúde brasileiro ainda enfrenta graves problemas, como longas filas para exames, consultas e cirurgias, o que agrava a situação tanto para profissionais quanto para pacientes. De um lado, há profissionais exaustos que continuam cuidando mesmo quando não sabem onde apoiar suas próprias dores; do outro, pacientes feridos, desconfiados e endurecidos pela vida, que buscam alívio, mas encontram barreiras justamente quando mais precisam de cuidado.
Esse contexto reacende um debate antigo sobre a relação entre ciência e espiritualidade na medicina. Durante muito tempo, a formação médica ensinou uma separação rígida entre corpo e subjetividade, uma divisão que não nasceu da indiferença, mas do esforço legítimo de tornar a medicina objetiva, mensurável e científica. Contudo, o ser humano real nunca se apresenta de forma fragmentada.
A espiritualidade, nesse sentido, não deve ser confundida com religiosidade ou doutrina, mas entendida como a dimensão que permite ao indivíduo encontrar sentido em meio ao sofrimento. Incorporar essa perspectiva no atendimento clínico significa promover um cuidado mais acolhedor e integral, resgatando valores fundamentais como escuta, presença e compaixão.
A reintegração entre ciência e humanidade no cuidado clínico pode transformar a vivência do adoecimento e fortalecer os vínculos no processo de cuidado, beneficiando tanto profissionais quanto pacientes. Essa abordagem é essencial para enfrentar os desafios atuais da saúde e para humanizar a prática médica, tornando-a mais sensível às necessidades reais do ser humano.
Por Dr. Fábio Guerra
Médico com atuação clínica em saúde cardiovascular e promoção da saúde mental; membro da Sociedade de Cardiologia do Estado de SP (Socesp); formação complementar em Cardiologia e Medicina do Tráfego; MBA em Administração pela Fundação Getulio Vargas (FGV); formação acadêmica em Psiquiatria e Saúde Mental; autor de livros sobre ciência e comportamento; CRM-SP 216701
Artigo de opinião



