O impacto invisível do estresse na produtividade e na tomada de decisão
Como o corpo sob pressão revela padrões emocionais que afetam o desempenho no ambiente corporativo
O impacto do estresse no cotidiano profissional deixou de ser uma percepção subjetiva e passou a integrar o radar de organismos internacionais. Segundo a Organização Mundial da Saúde, depressão e ansiedade associadas a ambientes de trabalho com alta pressão e baixa previsibilidade respondem pela perda estimada de 12 bilhões de dias úteis por ano no mundo, com custo aproximado de US$ 1 trilhão em produtividade.
A entidade também aponta que riscos psicossociais como sobrecarga, pressão contínua e falta de controle afetam diretamente a saúde mental e o desempenho no trabalho. Claudia Faria, especialista em regulação emocional e fisiológica e criadora do método Yoga Adventure, que integra respiração e movimento consciente em contextos de alta pressão, afirma que o corpo antecipa sinais ausentes nos indicadores tradicionais de desempenho. “O corpo entrega como a pessoa reage ao risco, ao erro e à cobrança constante”, diz.
No Brasil, dados da Associação Nacional de Medicina do Trabalho indicam aumento de queixas relacionadas a estresse, ansiedade e exaustão emocional em setores com metas agressivas e decisões rápidas. O movimento acompanha o reconhecimento, pela Organização Mundial da Saúde, da síndrome de burnout como fenômeno ocupacional ligado ao estresse crônico no trabalho, incluído na Classificação Internacional de Doenças CID 11.
Parte dessa leitura nasce fora do ambiente corporativo tradicional. Experiências em escalada e esportes outdoor são usadas como laboratório de observação emocional, por exporem indivíduos a situações em que o erro tem consequência imediata. “Quando existe risco real, a resposta do sistema nervoso fica evidente. A presença deixa de ser discurso”, observa.
Do ponto de vista fisiológico, a explicação é direta. O sistema nervoso responde ao estresse simbólico como prazos, cobranças e metas de forma semelhante ao estresse físico. Estudos citados pela Organização Mundial da Saúde associam essa ativação contínua a prejuízos de memória, tomada de decisão e regulação emocional. “Decisões são tomadas por corpos sob pressão, e isso raramente entra no planejamento estratégico”, aponta.
A partir dessa constatação, o método Yoga Adventure foi estruturado como ferramenta aplicada à gestão do estresse e ao desempenho profissional. A proposta combina respiração, movimento consciente e constância, sem recorrer a práticas contemplativas tradicionais. “Não se trata de relaxamento genérico, mas de treinamento fisiológico para sustentar clareza e presença em ambientes exigentes”, diz.
No recorte empresarial, a adoção desse tipo de abordagem tem avançado sobretudo em programas de liderança e palestras corporativas. O ponto central, segundo a especialista, é abandonar soluções superficiais. “Conteúdos prontos e práticas isoladas dificilmente criam mudança estrutural. O corpo aprende em contexto e repetição”, declara.
A especialista aponta cinco pontos que ajudam empresas a avaliar benefícios, cuidados e vantagens ao contratar esse tipo de serviço:
1- Como identificar a necessidade
Indicadores como aumento de conflitos, queda de concentração em momentos críticos e dificuldade de recuperação após períodos intensos sinalizam sobrecarga fisiológica. A Organização Mundial da Saúde relaciona esses fatores a riscos psicossociais no trabalho.
2- Por onde começar
A recomendação é iniciar por lideranças e equipes estratégicas. A exposição prática à pressão torna visíveis padrões emocionais que impactam decisões e relações profissionais.
3- Cuidados na contratação
Avaliar se o método foi testado em contextos reais de estresse é fundamental. Abordagens restritas a ambientes controlados tendem a perder eficácia quando a pressão aumenta.
4- Vantagens para a tomada de decisão
Ao reconhecer respostas automáticas do corpo, profissionais ampliam a capacidade de escolha consciente. Estudos em saúde ocupacional associam regulação fisiológica a melhor desempenho cognitivo sob pressão.
5- Alertas sobre soluções genéricas
Práticas desconectadas da realidade da empresa raramente geram constância. Sem adaptação ao contexto organizacional, os efeitos tendem a ser pontuais.
Para Claudia Faria, o avanço desse debate indica uma mudança silenciosa no mundo corporativo. “Não existe performance sustentável sem olhar para o corpo. Ele está sempre respondendo. A diferença está em aprender a ler esses sinais antes que o custo apareça nos afastamentos e nas decisões mal tomadas”, conclui.
Por Carolina Lara
Artigo de opinião



