Vírus Nipah: Entenda por que não há risco iminente de pandemia global
Apesar da gravidade potencial do vírus Nipah, especialistas alertam para a importância da vigilância sem alarmismo exagerado
Desde o final de 2023, novos registros de casos de vírus Nipah no Sul da Ásia voltaram a circular no noticiário internacional e, como é natural, despertaram apreensão. Trata-se de um vírus com potencial de gravidade elevada, mas isso não significa que estejamos diante de uma nova ameaça global comparável à Covid-19. O Nipah exige vigilância contínua e cooperação internacional, porém não apresenta, hoje, características que indiquem risco real de disseminação em massa.
Identificado pela primeira vez em 1999, na Malásia, o vírus Nipah é classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um patógeno zoonótico emergente, tendo morcegos frugívoros como principal reservatório natural. Segundo a OMS, os surtos registrados até hoje concentram-se majoritariamente em países como Bangladesh, Índia, Malásia e Singapura, geralmente associados a contato com animais infectados ou ao consumo de alimentos contaminados. Ainda de acordo com a OMS, a taxa de letalidade observada varia entre 40% e 75%, dependendo do surto e da capacidade de resposta local. Esses números explicam a atenção da comunidade científica, mas não significam, por si só, alto potencial pandêmico.
O principal fator que limita a expansão global do Nipah está na sua forma de transmissão. Diferentemente de vírus respiratórios altamente contagiosos, como influenza ou SARS-CoV-2, o Nipah não se espalha de maneira eficiente pelo ar. O Centers for Disease Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos, destaca que a transmissão ocorre principalmente por contato direto com secreções de animais infectados, ingestão de alimentos contaminados ou contato próximo e prolongado com pessoas doentes. Não há evidências de transmissão sustentada em larga escala entre humanos, o que reduz significativamente a probabilidade de cadeias extensas de contágio.
Existe a preocupação de que todo vírus emergente pode “evoluir” e se tornar mais transmissível, justificando alarme antecipado. Embora mutações façam parte da dinâmica natural dos vírus, até o momento não existem indícios de que o Nipah esteja passando por alterações genéticas que modifiquem seu padrão epidemiológico. Segundo relatórios recentes da OMS, os casos continuam restritos a áreas específicas, com rastreamento de contatos e interrupção precoce das cadeias de transmissão.
Vigilância não é sinônimo de pânico. É, na verdade, o mecanismo que impede que cenários piores se concretizem. Outro ponto que merece ponderação é o impacto da vigilância epidemiológica global construída após a pandemia de Covid-19. Sistemas de alerta precoce, sequenciamento genético mais acessível e comunicação rápida entre países ampliaram consideravelmente a capacidade de detecção de patógenos. Isso faz com que mais casos sejam identificados e noticiados, o que pode gerar a sensação de aumento de ameaças, quando, na prática, o que aumentou foi a transparência e a capacidade de resposta.
A discussão sobre o vírus Nipah deve, portanto, ser pautada por equilíbrio. Reconhecer sua gravidade potencial é necessário. Transformá-lo em símbolo de um novo colapso sanitário global não é. O caminho mais responsável passa por manter sistemas de vigilância fortes, investir em pesquisa e reforçar medidas básicas de prevenção contra doenças infecciosas, sem induzir comportamentos baseados no medo. Informação qualificada protege mais do que alarmismo.
Por Dr. Guilherme Freire
médico infectologista da Unimed Franca, referência em infectologia na região de Franca (SP), com sólida experiência em vigilância de doenças infecciosas e atuação clínica na Unimed Franca
Artigo de opinião



