Entre exames e esperança: a jornada humana da fertilidade
Como a ciência e a fé se entrelaçam na busca pela maternidade, revelando desafios emocionais e a importância do tempo do corpo
Nem tudo na medicina se resume a números, protocolos ou estatísticas, especialmente quando falamos de fertilidade. Para quem vive essa jornada, existe algo que sustenta quando os exames se acumulam e as respostas demoram a chegar: a esperança.
Durante as consultas, escuto histórias de mulheres e casais que já tentaram de tudo. Pessoas que chegam cansadas, frustradas, muitas vezes com a sensação de que o próprio corpo falhou. Dentre as diversas perguntas médicas, as que mais ocorrem são “será que não é pra ser?” ou “será que vai mesmo acontecer?”.
Em todos esses anos de experiência posso dizer que a ciência avançou muito. Hoje, conseguimos compreender melhor o funcionamento do corpo, acompanhar cada etapa do processo reprodutivo, personalizar tratamentos e ampliar as chances de sucesso, inclusive com a tecnologia.
Nos últimos anos, a medicina reprodutiva passou por uma transformação importante, impulsionada por inovação e tecnologia. Recursos como incubadoras com monitoramento contínuo, conhecidas como time lapse, permitem acompanhar o desenvolvimento dos embriões sem interferir em seu ambiente, respeitando cada detalhe do processo natural. A inteligência artificial passou a apoiar a análise embrionária, ajudando médicos a identificar padrões e tomar decisões mais precisas e individualizadas.
Esses avanços não eliminam a incerteza, mas ampliam as possibilidades e trazem mais segurança, cuidado e respeito ao tempo de cada corpo. Com os avanços tecnológicos e a individualização, atualmente conseguimos aproveitar muito melhor o potencial de cada paciente, minimizando fatores externos que impactam na formação do embrião e potencializando as chances de formarmos embriões mesmo em cenários mais desafiadores como a idade reprodutiva avançada e os quadros de baixa reserva e insuficiência ovariana.
Outro recurso que vem sendo muito utilizado também é a ovoadoação, que traz esperança para os casais e é indicado para mulheres que não produzem óvulos viáveis, como nos casos de baixa reserva ovariana, falência ovariana precoce, histórico de tratamentos oncológicos ou para aquelas que iniciaram o projeto reprodutivo em idade mais avançada. No procedimento, óvulos doados de forma anônima são fertilizados em laboratório e o embrião é transferido para o útero da paciente, que vivencia integralmente a gestação. Por isso, a técnica tem sido escolhida por quem deseja engravidar e exercer a maternidade, com um vínculo construído ao longo da gravidez e do cuidado diário, independentemente da genética.
Porém, ainda assim, a fertilidade segue sendo um território onde o controle absoluto não existe. Talvez nunca exista. É justamente nesse espaço que a fé encontra a ciência. Não como forças opostas, mas como dimensões que se complementam. A fé não substitui o tratamento, obviamente, assim como não dispensa exames, protocolos ou decisões médicas responsáveis. Mas ela sustenta emocionalmente quem está no meio do caminho; ela ajuda a atravessar o tempo da espera, a lidar com resultados inesperados, a seguir em frente quando o cansaço chega antes da resposta.
Vejo, todos os dias, pacientes que conciliam consultas com orações, exames com esperança, procedimentos com silêncio interior. Não importa a religião ou a crença, mas reconhecer que o desejo de ter um filho toca algo muito profundo, que vai além do corpo.
Planejar a fertilidade, buscar ajuda médica e compreender os limites e as possibilidades do próprio corpo não diminui a fé. Para muitas pessoas, cuidar da saúde reprodutiva é também um ato de confiança no futuro. É dizer a si mesmo que esse sonho merece atenção, cuidado e presença.
Ter filhos nunca foi apenas uma questão biológica, trata-se de um projeto de vida carregado de expectativas, medos e sonhos. Um projeto que exige informação, acolhimento e, muitas vezes, coragem para continuar tentando.
Na minha percepção, a ciência oferece caminhos e a fé dá sentido à caminhada. Quando essas duas dimensões caminham juntas, a jornada deixa de ser apenas técnica e se torna profundamente humana. Mesmo quando o resultado não é imediato, algo se transforma e cresce a confiança, o cuidado e a esperança de que a vida encontre o seu tempo.
Por Dr. Matheus Roque
especialista em reprodução assistida do Grupo Huntington
Artigo de opinião



