Desafios da Adolescência: Quando o Comportamento Não é Transtorno
A linha tênue entre diagnósticos clínicos e dificuldades contextuais na infância e adolescência exige reflexão sobre medicalização e educação
O crescimento dos diagnósticos de transtornos do neurodesenvolvimento na infância e adolescência revela avanços no acesso ao cuidado, mas também expõe o risco de transformar desafios comportamentais em laudos clínicos. Com base em dados oficiais, literatura científica e a análise de uma especialista em Educação Infantil com atuação internacional, a pauta discute a linha tênue entre transtorno real e dificuldades contextuais ligadas a rotina, limites e ambiente emocional. A matéria propõe um debate responsável sobre medicalização, educação e desenvolvimento, alertando para os impactos do sobrediagnóstico tanto para crianças que realmente precisam de suporte quanto para aquelas que demandam presença adulta, previsibilidade e formação emocional.
Nunca se diagnosticou tanto. Em parte, isso é uma boa notícia. O avanço no rastreio do desenvolvimento infantil e a ampliação do acesso a serviços de saúde permitiram que muitas crianças, antes invisíveis, passassem a receber acompanhamento, suporte especializado e, quando indicado, tratamento medicamentoso. Para essas crianças, o diagnóstico não é rótulo. É proteção.
O problema começa quando o laudo deixa de ser resposta clínica e passa a funcionar como atalho social para explicar qualquer comportamento difícil. Os números mostram a dimensão do fenômeno. O Censo 2022 do IBGE identificou 2,4 milhões de brasileiros com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista. No ambiente escolar, o Censo Escolar aponta crescimento superior a 40% nas matrículas de alunos com TEA em apenas um ano. O sistema passou a enxergar mais. Mas enxergar mais não é sinônimo de avaliar melhor.
A literatura científica internacional é cautelosa ao interpretar esse movimento. O aumento de diagnósticos observado em diversos países é atribuído principalmente à ampliação de critérios, maior vigilância e redução do subdiagnóstico. Ao mesmo tempo, revisões sistemáticas alertam para o risco de sobrediagnóstico, sobretudo quando avaliações são rápidas, fragmentadas e pouco contextualizadas.
Essa tensão aparece de forma clara quando o debate chega ao TDAH e à medicalização. Dados históricos da Anvisa, a partir do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados, mostram crescimento expressivo na comercialização de medicamentos estimulantes ao longo dos últimos anos. O dado, isoladamente, não prova erro clínico. Mas acende um alerta sobre a pressa em transformar comportamento em diagnóstico.
É nesse ponto que a distinção entre transtorno e contexto se torna decisiva. Para a especialista em Educação Infantil com atuação internacional Roberta Scalzaretto, o debate precisa sair da polarização entre negar transtornos e patologizar a infância. “Há crianças que realmente apresentam transtornos do neurodesenvolvimento e precisam de acompanhamento, adaptações, suporte contínuo e, em alguns casos, medicação. Negar isso é negligência. O risco está em confundir dificuldades próprias do desenvolvimento com doença porque o adulto perdeu a referência do que é infância”, afirma.
Segundo ela, comportamento não pode ser analisado fora de contexto. Falta de rotina, ausência de limites claros, excesso de estímulos, uso prolongado de telas e ambientes emocionalmente instáveis produzem crianças mais agitadas, impulsivas e desorganizadas. Isso exige constância, educação e tempo. Não necessariamente um diagnóstico.
“O laudo é uma ferramenta clínica importante, mas não pode substituir o papel educativo da família e da escola. Quando isso acontece, a criança deixa de aprender a se autorregular e o adulto se afasta da responsabilidade de sustentar limites”, diz.
Na prática, a diferença entre transtorno e contexto passa por critérios que costumam ser ignorados no debate público. Transtornos do neurodesenvolvimento envolvem prejuízo funcional persistente, observado em diferentes ambientes, ao longo do tempo, mesmo quando há rotina, limites e suporte adequados. Já dificuldades contextuais tendem a variar conforme o ambiente, a fase do desenvolvimento e a qualidade das relações estabelecidas.
Confundir essas duas realidades gera um efeito perverso. Crianças que realmente precisam de diagnóstico e tratamento passam a ser desacreditadas em meio ao excesso de rótulos. Ao mesmo tempo, crianças que precisam de limites, previsibilidade e presença adulta passam a ser tratadas como pacientes.
Nada disso invalida o avanço da ciência nem a importância dos diagnósticos. Eles existem, são necessários e salvam trajetórias quando bem conduzidos. O que está em debate é o uso indiscriminado do laudo como resposta rápida para uma infância cada vez menos tolerada em sua imaturidade natural.
Diagnosticar bem protege. Diagnosticar mal confunde. E confundir desenvolvimento com doença cobra um preço alto, sobretudo de quem ainda está aprendendo a existir no mundo.
Por Roberta Scalzaretto
Especialista em Educação Infantil com atuação internacional; Graduada em Magistério, Pedagogia e Psicopedagogia; Experiência no Brasil e nos Estados Unidos; Formação avançada na abordagem Pikler; Idealizadora do projeto Brinquedoteca no Colégio Porto Seguro Panamby; Referência em práticas pedagógicas.
Artigo de opinião



