A conexão entre saúde bucal e demência: um alerta para prevenção
Estudos recentes indicam que a periodontite pode aumentar o risco de demência, destacando a importância do cuidado gengival na saúde cerebral
Enquanto o Brasil projeta que o número de pessoas com demência pode mais que dobrar até 2050, novas pesquisas internacionais começam a investigar fatores modificáveis de risco além da genética e do envelhecimento. Um estudo publicado na revista científica BMC Oral Health analisou quase 19 mil pacientes em Taiwan e identificou que adultos com periodontite sem acompanhamento preventivo apresentaram risco 22% maior de desenvolver demência. Já aqueles que realizaram raspagem periodontal regular demonstraram risco reduzido.
A pauta discute o que essa associação significa, quais são as limitações científicas e por que a saúde bucal pode integrar estratégias preventivas de longo prazo.
O Relatório Nacional sobre a Demência, divulgado pelo Ministério da Saúde em setembro de 2024, aponta que cerca de 8,5% dos brasileiros com 60 anos ou mais convivem com algum tipo de demência, o equivalente a aproximadamente 2,7 milhões de pessoas. A projeção oficial indica que esse contingente pode mais que dobrar até 2050, acompanhando o envelhecimento acelerado da população.
O debate costuma girar em torno de genética, envelhecimento e fatores cardiovasculares. Mas a ciência começa a ampliar esse radar e a boca entrou na conversa.
O estudo publicado em 2023 analisou 18.930 pacientes com diagnóstico de demência no banco nacional de saúde de Taiwan e cruzou esses dados com histórico de tratamento periodontal. O resultado chamou atenção: adultos com periodontite que não realizaram raspagem regular nos três anos anteriores apresentaram risco 22% maior de desenvolver demência quando comparados a indivíduos sem periodontite ou com acompanhamento preventivo adequado.
Além disso, pacientes que realizaram raspagem periodontal regular tiveram risco reduzido, sugerindo efeito protetor associado ao controle da inflamação gengival.
A periodontite é uma infecção crônica que mantém o organismo em estado inflamatório persistente. Sabemos que mediadores inflamatórios como interleucinas e fator de necrose tumoral podem circular sistemicamente. Em doenças neurodegenerativas, a inflamação tem papel relevante. A associação encontrada reforça a importância de controlar focos inflamatórios ao longo da vida.
O estudo mostra ainda que pacientes que precisaram de tratamentos periodontais de emergência, geralmente indicativos de quadros mais graves, apresentaram risco ainda maior de demência, mesmo após ajuste para idade, hipertensão e diabetes.
A hipótese biológica discutida pelos pesquisadores envolve dois caminhos possíveis: a disseminação de bactérias e lipopolissacarídeos pela corrente sanguínea e a ativação crônica do sistema imunológico. Ambos podem contribuir para um ambiente neuroinflamatório, condição frequentemente observada em Alzheimer.
A boca não é um sistema isolado. A inflamação gengival contínua funciona como um microfoco infeccioso ativo. Quando pensamos em prevenção de doenças complexas, precisamos reduzir carga inflamatória sistêmica. A odontologia pode fazer parte dessa estratégia preventiva, o tratamento correto ou quando bem indicado, acaba sendo uma proteção cerebral.
Isso ganha relevância diante do envelhecimento acelerado da população brasileira. Se a demência dobrará nas próximas décadas, identificar fatores modificáveis deixa de ser discussão acadêmica e passa a ser questão de política pública.
Importante frisar: o próprio estudo reconhece limitações e não afirma que a periodontite cause Alzheimer. Trata-se de associação epidemiológica em grande amostra populacional, que reforça a necessidade de mais estudos prospectivos. Ainda assim, os autores concluem que a saúde periodontal influencia o risco de demência e sugerem que a raspagem regular pode reduzir essa incidência.
No fevereiro Roxo, a mensagem é clara: prevenir demência não começa apenas no neurologista. Pode começar na cadeira do dentista. Ignorar a gengiva que sangra pode custar mais caro do que se imagina.
Por André Girotto
cirurgião-dentista com 27 anos de experiência clínica, especialista em Ortopedia Funcional dos Maxilares pelo Conselho Federal de Odontologia, pós-graduado em Administração Hospitalar e Sistemas de Saúde pela FGV, atua com reabilitação neuro-oclusal, ortodontia e odontologia digital
Artigo de opinião



