O Sono como Pilar Esquecido na Saúde Mental no Brasil

Por que a negligência do sono compromete o cuidado e a prevenção da ansiedade e depressão no sistema de saúde brasileiro

O Brasil ampliou o debate sobre saúde mental, mas ainda trata emoções como se fossem dissociadas do corpo que as sustenta. Ansiedade e depressão ganharam espaço no discurso público, nas campanhas institucionais e nos serviços de saúde, enquanto fatores biológicos básicos do adoecimento emocional continuam relegados a um segundo plano. Entre eles, o sono ocupa um lugar paradoxal. É amplamente reconhecido pela ciência como essencial à regulação do humor, da memória e da estabilidade psíquica, porém permanece marginal nas políticas públicas e nos protocolos clínicos, sobretudo na atenção primária.

O resultado é um modelo de cuidado que reage à crise, falha em prevenir o sofrimento e insiste em tratar sintomas sem enfrentar uma de suas causas mais evidentes. Informações divulgadas em 2025 pelo Ministério da Saúde, em parceria com a Associação Brasileira do Sono, indicam que mais de 70% dos brasileiros relatam algum tipo de alteração no sono, como dificuldade para adormecer ou manter um descanso contínuo ao longo da noite. O dado não descreve um incômodo ocasional. O próprio Ministério reconhece que grande parte dessas queixas é recorrente, o que ajuda a compreender por que o sofrimento emocional persiste mesmo após tratamentos convencionais e por que intervenções focadas apenas nos sintomas tendem a produzir alívio limitado.

Essa negligência torna-se ainda mais evidente diante do avanço dos transtornos de ansiedade no país. Boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde divulgados em 2025 indicam que a ansiedade figura entre os transtornos mentais mais prevalentes na população adulta e se mantém como uma das principais causas de afastamento do trabalho por motivo de saúde mental. No mesmo período, análises técnicas da Secretaria de Vigilância em Saúde apontaram que sintomas de ansiedade aparecem de forma recorrente associados a distúrbios do sono, dificuldade de concentração e fadiga persistente, especialmente nos atendimentos da atenção primária.

Essa sobreposição de sintomas revela uma falha de abordagem. Tratar ansiedade sem investigar padrões de sono significa intervir apenas na manifestação visível de um problema que se constrói biologicamente ao longo do tempo. O sono não ocupa um papel periférico no sofrimento psíquico. Ele atua como um de seus principais reguladores. Ignorá-lo equivale a aceitar um cuidado incompleto e de baixa efetividade.

A literatura científica brasileira recente reforça essa conexão. Estudos conduzidos por universidades públicas e publicados em 2025 mostram que pessoas com sintomas de ansiedade apresentam maior risco de desenvolver insônia, enquanto a privação crônica de sono intensifica quadros depressivos, compromete a regulação emocional e reduz a resposta a intervenções psicológicas. Esses achados desafiam a lógica ainda dominante no sistema de saúde, que trata o sono apenas como consequência do adoecimento mental e não como um fator ativo de risco e manutenção do sofrimento.

Apesar das evidências, o cuidado em saúde mental no Brasil segue fragmentado. Protocolos do Sistema Único de Saúde em vigor até 2025 não incorporam a avaliação sistemática do sono como etapa central da atenção primária ou dos serviços especializados. O próprio debate legislativo expôs essa lacuna. Em 2025, a Câmara dos Deputados discutiu a criação de uma política nacional de atenção aos distúrbios do sono no SUS, reconhecendo oficialmente que o tema permanece fora das diretrizes estruturais de cuidado, mesmo diante de seu impacto comprovado sobre a saúde mental, a produtividade e a qualidade de vida.

A ausência de estratégias preventivas focadas no sono produz efeitos concretos e mensuráveis. Ela favorece recaídas frequentes, estimula o uso prolongado de psicofármacos e reforça um modelo de medicalização que não enfrenta as causas do adoecimento, além de intensificar a sobrecarga dos serviços especializados. Ignorar o problema em sua origem não reduz custos nem complexidade do sistema de saúde. Ao contrário, posterga intervenções necessárias, prolonga o sofrimento e amplia o custo humano, social e institucional do cuidado.

Colocar o sono no centro da política de saúde mental não significa ampliar artificialmente a agenda pública. Trata-se de corrigir uma falha estrutural. Reconhecer que não existe cuidado emocional eficaz sem descanso adequado implica rever protocolos, capacitar a atenção primária e incorporar o sono como eixo preventivo do cuidado.

Enquanto o Brasil insistir em tratar ansiedade e depressão dissociadas do sono, continuará administrando crises previsíveis como se fossem inevitáveis. Isso não decorre de limitação técnica. Trata-se de uma escolha política.

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Por Renata Redondo Bonaldi

CEO da SleepUp, healthtech brasileira especializada em saúde do sono e bem-estar emocional

Artigo de opinião

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