Golpes digitais exploram a solidão e a necessidade de afeto para enganar adultos vulneráveis

A nova face das fraudes online utiliza engenharia emocional para capturar pessoas emocionalmente fragilizadas, ultrapassando barreiras de escolaridade e status social

A nova engenharia da fraude atua no campo do afeto, da solidão e da fantasia — e por isso atinge adultos instruídos, experientes e emocionalmente exaustos.

Os golpes digitais deixaram de ser apenas uma questão de segurança cibernética. Cada vez mais, eles operam no campo emocional, explorando sentimentos de solidão, carência afetiva e necessidade de reconhecimento. Antes de atingir as contas bancárias, esses crimes atingem algo mais frágil: o vínculo humano.

Dados da SaferNet Brasil mostram que denúncias relacionadas a fraudes digitais envolvendo falsos relacionamentos, promessas afetivas e manipulação emocional cresceram de forma consistente nos últimos anos. Em muitos casos, as vítimas são adultos com alto nível de escolaridade, estabilidade profissional e autonomia financeira — um perfil que foge do estereótipo tradicional associado a golpes online.

Em 2024, foram registradas cerca de 100 mil denúncias, contra 150 mil em 2023; essa redução não indica menor incidência, mas a migração dos crimes para ambientes digitais mais fechados e sofisticados, como o Telegram, que concentra mais de 90% das ocorrências. Esse deslocamento amplia o uso de engenharia emocional, fazendo com que muitas vítimas só percebam a fraude quando o vínculo já está consolidado.

“Esses golpes não começam mais pelo dinheiro. Eles começam pelo afeto. A pessoa é capturada pela sensação de ser vista, escutada, escolhida”, afirma a psicóloga e psicanalista Camila Camar.

Especialistas em segurança digital apontam que os golpistas passaram a utilizar algoritmos e análise de comportamento para identificar vulnerabilidades emocionais. Padrões de comportamento digital — ligados a momentos de transição, reorganização de identidade ou busca por pertencimento e validação — funcionam como sinais para abordagens altamente personalizadas, sem que a pessoa perceba.

“A tecnologia permite mapear quem já está emocionalmente fragilizado. O algoritmo encontra o alvo, e o golpista oferece exatamente a fantasia que falta”, explica Camar.

Perfis falsos são construídos com imagens cuidadas, histórias coerentes e linguagem ajustada ao estilo da vítima. A aproximação costuma ser gradual, baseada em empatia e identificação. Só depois que o vínculo se consolida surgem pedidos financeiros, normalmente associados a emergências, dificuldades pessoais ou oportunidades financeiras supostamente exclusivas.

Do ponto de vista da psicanálise, esse mecanismo se apoia em processos já descritos por Freud, como a idealização do outro e a projeção de desejos inconscientes. Em contextos de fragilidade emocional, essas projeções podem suspender o pensamento crítico. Lacan também apontava que o desejo humano está profundamente ligado ao reconhecimento — à sensação de ser visto pelo outro. No ambiente digital, esse olhar pode ser simulado de forma contínua e personalizada.

“O golpe opera na imaginação. Não é a promessa de lucro que seduz, mas a promessa de vínculo. Quando a pessoa acredita que é especial para alguém, o juízo crítico fica em segundo plano”, afirma Camar.

Quando o golpe é descoberto, o impacto costuma ir além da perda financeira. Segundo relatos de organizações que atendem vítimas, sentimentos de vergonha, culpa e humilhação são frequentes. Muitos não registram ocorrência nem compartilham o episódio com familiares.

“A violência desse tipo de golpe é psíquica antes de ser financeira. A pessoa perde dinheiro, mas perde também uma fantasia que sustentava sua autoestima”, diz a psicanalista.

No fim, os golpes digitais não se apoiam apenas em falhas de segurança ou desconhecimento tecnológico. Eles se alimentam da busca por reconhecimento — uma vulnerabilidade que permanece profundamente humana, mesmo na era dos algoritmos.

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Por Camila Camaratta

Psicóloga e psicanalista, formada em Psicologia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), formação em Psicanálise pelo Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre (CEPdePA), membro pleno do CEPdePA, membro associado da Federação Latino-Americana de Associações de Psicanálise (FELAP)

Artigo de opinião

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