Pós-férias e o aumento recorde dos pedidos de demissão no Brasil

Como o afastamento da rotina durante as férias intensifica a reflexão sobre carreira e impulsiona a decisão de mudança profissional

O retorno das férias costuma ser tratado pelas empresas como uma simples retomada de rotinas, metas e reuniões. Na prática, porém, ele coincide com um momento em que muitos profissionais voltam ao trabalho com a decisão de mudança mais clara e com menos disposição para seguir em contextos que já vinham gerando insatisfação.

Esse movimento ajuda a entender por que os pedidos de demissão voluntários vêm ganhando peso no Brasil. Em 2023, eles somaram cerca de 7,3 milhões e, em 2024, avançaram para aproximadamente 8,5 milhões, passando de 34% para 38,5% do total de desligamentos, segundo dados do Ministério do Trabalho. No início de 2025, os números oficiais do Novo Caged mostram que 37,9% dos desligamentos em janeiro foram a pedido dos próprios trabalhadores, o maior percentual mensal já registrado na série histórica do emprego formal.

Mais do que um fenômeno sazonal, esses números revelam uma mudança estrutural na relação entre profissionais e trabalho. Pedir demissão passou a ser uma alternativa mais presente no repertório de decisões sobre carreira. Muitos profissionais reavaliam a própria trajetória, revisam suas possibilidades de escolha com mais frequência e tomam atitudes ao identificar desalinhamento. O período de férias costuma ser um momento em que esse tipo de reflexão ganha força, porque o afastamento da rotina facilita uma avaliação mais racional da própria carreira e das condições de trabalho.

Esse distanciamento proporcionado pelas férias pode ampliar a percepção sobre a experiência de trabalho como um todo, inclusive sobre aspectos que dificilmente aparecem nos indicadores formais de desempenho. Muitas decisões de desligamento não nascem de uma oferta externa ou de uma insatisfação pontual, mas da soma de vivências acumuladas ao longo do tempo. Nesse contexto, as férias podem funcionar como uma pausa para reflexão, que permite ao profissional enxergar a cultura organizacional com mais nitidez, pois fora da rotina, ele tende a reavaliar o ambiente a partir de uma visão mais ampla, analisando com maior clareza padrões de gestão, relações internas, coerência entre discurso e prática e a forma como a empresa reconhece, desenvolve e disponibiliza oportunidades de progressão na carreira.

Quando o profissional retorna das férias, essas percepções tendem a se consolidar. A retomada da rotina — reuniões, prazos e cobranças — funciona como um espelho que confirma incômodos acumulados ao longo do tempo. Antes do pedido formal de demissão, porém, os sinais já costumam aparecer. Queda de engajamento, participação mais passiva nas atividades de trabalho, afastamento dos canais internos e respostas cada vez mais genéricas são indícios de desconexão.

O desafio do Recursos Humanos (RH) está menos em lidar com o desligamento e mais em reconhecer esses sinais enquanto ainda há margem para ação.

É exatamente nesse intervalo entre o descanso e a retomada da rotina que o RH pode atuar de forma estratégica e preventiva, criando ações para reduzir riscos de desligamento no pós-férias. O retorno ao trabalho deve ser tratado como um momento de reconexão. Ações como workshops que resgatem a cultura e o propósito da empresa, dinâmicas de alinhamento, conversas individuais e suporte às lideranças ajudam a reconstruir vínculos e a reduzir ruídos na comunicação.

Não se trata de convencer ninguém a ficar, mas de mostrar coerência entre o que a empresa diz e o que ela entrega.

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Por Elenise Martins

Artigo de opinião

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