Midorexia: Entendendo o Medo de Envelhecer na Sociedade Atual
Por que a angústia diante do envelhecimento reflete uma cultura que valoriza excessivamente a juventude e como ressignificar essa fase da vida
Envelhecer é uma parte natural da vida. É um processo do desenvolvimento que pode trazer muitas coisas boas, como sabedoria, experiência e uma compreensão mais profunda da vida. Além disso, muitas pessoas descobrem que a idade traz mais liberdade e autonomia, permitindo que aproveitem a vida de uma maneira que não puderam fazer antes.
Porém, muitos sofrem com o que chamamos na Psicologia de Midorexia, que é um termo usado para descrever um fenômeno cada vez mais presente na nossa cultura: a angústia intensa diante do envelhecimento e a busca constante por manter uma imagem, um estilo de vida e um lugar social associados aos mais jovens.
Importante dizer com clareza que a Midorexia não é um diagnóstico. É um conceito psicossocial que ajuda a compreender um tipo de sofrimento que aparece na vida cotidiana, especialmente em uma sociedade que valoriza a juventude de forma desproporcional e trata o envelhecer como perda de valor.
Esse medo excessivo de envelhecer ou do processo de envelhecimento pode manifestar-se como ansiedade, preocupação constante com a aparência física, medo de perder a saúde, independência ou vitalidade à medida que se envelhece. A qualidade de vida das pessoas é afetada, levando-as a tomar decisões prejudiciais, como cirurgias plásticas em excesso ou evitar atividades que considerem associadas ao envelhecimento.
Neste sentido, o envelhecer vira fonte constante de comparação, frustração, insatisfação corporal e sensação de inadequação, impactando a autoestima, as relações e a saúde emocional. Além de levar a uma preocupação intensa e a uma tentativa de evitar o processo natural de envelhecimento a qualquer custo, impedindo que a pessoa aproveite os benefícios que a idade pode trazer.
Quando o amadurecimento é tratado como algo a ser combatido, e não vivido, perdemos a chance de crescer com autoconfiança e plenitude. Por isso, é essencial desafiar esses padrões e celebrar cada fase da vida como parte da nossa história e força.
Cuidar da aparência, ter vitalidade e gostar de se sentir bem no próprio corpo é saudável. O que adoece é a negação do próprio ciclo de vida e a ideia de que só existe valor enquanto se parece jovem. É fundamental buscar um espaço de acolhimento e elaboração desses conflitos, para ajudar na construção de uma relação mais ética, gentil e realista com o corpo, o tempo e a própria história — sem abrir mão da vaidade, do prazer e da alegria de viver. Afinal, envelhecer não é falhar. É seguir existindo.
Fato é que o envelhecer não deveria ser visto como perda, mas como continuidade, um espaço de conquistas, memórias e possibilidades. Quando aceitamos o tempo, deixamos de lutar contra ele e começamos a viver de verdade.
Perceber se está sofrendo com a Midorexia é o primeiro passo para reprocessar a mente e fortalecer a relação com o espelho e a autoestima, de modo a explorar os medos, acolher angústias e construir uma visão mais positiva sobre essa etapa da vida.
Enfim, quando o medo de envelhecer toma conta, ele rouba mais do que rugas: apaga nossa essência. Envelhecer é um processo natural e pode ser assustador por ser um momento que traz reflexões profundas sobre o tempo, o corpo, as realizações e, muitas vezes, sobre as perdas.
Mas, apesar do medo, também pode ser uma fase de muita sabedoria, aceitação e serenidade. Basta ressignificar e compreender que cada etapa carrega potenciais únicos e novas formas de ser, pertencer, aprender e aproveitar cada dia. Envelhecer não é perder valor. É ganhar história.
Por Dra. Andréa Ladislau
Psicanalista
Artigo de opinião



