Alexitimia em adultos: quando sentir não é nomear emoções
Entenda como a dificuldade de reconhecer sentimentos afeta pessoas com TDAH e Autismo e quais caminhos existem para o tratamento
Muitas pessoas chegam à vida adulta com a sensação constante de que “algo não encaixa”, mas sem conseguir nomear exatamente o que sentem. Não é falta de emoção: é dificuldade de reconhecê-la. Esse fenômeno tem nome: alexitimia.
Segundo o neurologista Dr. Matheus Trilico, referência no tratamento de TDAH e Autismo em adultos, a alexitimia não é um transtorno isolado, mas uma condição associada, bastante frequente em pessoas neurodivergentes.
“A pessoa sente, reage, sofre, mas não consegue identificar, organizar ou expressar emocionalmente o que está acontecendo. Isso gera confusão interna, desgaste nas relações e até sintomas físicos”, explica o neurologista.
Na prática, a alexitimia costuma aparecer de forma silenciosa e muitas vezes é confundida com frieza emocional ou desinteresse. Entre os principais sinais estão:
• Dificuldade para identificar e nomear emoções;
• Respostas emocionais consideradas “fora de contexto”;
• Tendência a racionalizar tudo, inclusive sentimentos;
• Desconforto em conversas emocionais;
• Queixas físicas frequentes sem causa médica clara;
• Sensação de vazio ou desconexão emocional.
De acordo com Dr. Matheus, nos adultos com TDAH, essa dificuldade pode se misturar à impulsividade e à desregulação emocional. Já no Autismo, está frequentemente ligada ao processamento emocional diferente e à dificuldade de leitura interna e social.
Relacionamentos afetivos, ambiente de trabalho e até o autocuidado podem ser profundamente afetados. “Muitos pacientes relatam que só percebem que estão tristes, sobrecarregados ou ansiosos quando o corpo já entrou em exaustão”, pontua Dr. Matheus Trilico.
A alexitimia também pode contribuir para quadros de ansiedade, depressão, burnout e isolamento social não por falta de vínculo, mas por dificuldade de acesso emocional.
Existe tratamento?
Dr. Matheus responde que sim. E o primeiro passo é o diagnóstico correto, que passa por uma avaliação neurológica cuidadosa e, muitas vezes, multidisciplinar.
O tratamento envolve:
• Psicoeducação, para ajudar o paciente a entender como seu cérebro funciona.
• Psicoterapia, com foco em reconhecimento e expressão emocional.
• Estratégias de regulação emocional.
• Tratamento medicamentoso, quando indicado, especialmente em casos de TDAH associado.
“A alexitimia não define quem a pessoa é. Com acompanhamento adequado, é possível desenvolver repertório emocional, melhorar relações e qualidade de vida”, reforça o neurologista.
Falar sobre alexitimia é abrir espaço para adultos que passaram anos sendo vistos como “difíceis”, “frias” ou “desconectadas”, quando na verdade estavam tentando sentir do jeito que conseguiam.
Dr. Trilico alerta que reconhecer essa condição é um passo importante para mais empatia, acolhimento e caminhos reais de tratamento.
Por Dr. Matheus Luis Castelan Trilico
Médico pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA); Neurologista com residência médica pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR); Mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde pelo HC-UFPR; Pós-graduação em Transtorno do Espectro Autista
Artigo de opinião



