O peso do estereótipo: o custo invisível de ser a “boa trabalhadora” asiática

Como a expectativa de perfeição e esforço constante impõe um silêncio doloroso e limita a humanidade das mulheres asiáticas

Se em sua sala de aula havia um(a) japonês(a), você provavelmente imaginava que ele(a) era o melhor da turma. Quando ainda estava no ensino fundamental, mudei-me de escola várias vezes. Percebi que, não importava onde estivesse, era esperado que eu, por ser amarela, fosse uma boa estudante, inteligente e esforçada. A pressão dos outros era tão grande ou até maior que a pressão de dentro de casa.

Esse estereótipo do japonês inteligente e esforçado ganha força nos cursinhos. Sempre ouvia a frase: “enquanto você vai ao banheiro, um japonês está estudando”. Parece inofensiva, mas não é. São momentos de estresse e pressão interna e externa. Se você não vai bem, sente-se mal, mas um japonês que não vai bem, sente-se um fracasso total, um incompetente, um mal da sociedade.

Eu, por sorte ou destino, me adequava ao estereótipo da boa estudante. Passei no vestibular de medicina da Unifesp sem precisar de cursinho e isso poderia ser um alívio, mas a pressão continuou durante a faculdade. Dificilmente alguém passa no vestibular de medicina sem cursinho, por isso, imaginavam que eu era uma espécie de gênia. Para manter essa imagem no imaginário das pessoas, eu estudava com afinco, virava noites, não dormia. No entanto, uma hora, cansei de bancar a garota genial. Estava cansada, exausta.

Passei a estudar o que era possível. Não consegui mais ler toda a bibliografia sugerida. Minhas notas caíram. No entanto, o estereótipo permaneceu. Ao chegar à fase de prestar a prova de residência médica, dediquei-me ao máximo. Não queria gastar milhares de reais em cursinhos e queria passar logo na residência para, talvez, poder fazer o que gosto de fato.

Na residência, eu também era vista como boa trabalhadora, inteligente e esforçada. E isso era, em parte, verdade. Eu me esforçava mesmo, mas não sei o que começou primeiro, meu esforço ou a pressão social. O problema dessa alta expectativa é que ela não deixa espaço para falhas. Erros não são tolerados e somos vistas quase como robôs.

Entre a pressão social e o silêncio do sofrimento

Por essa falta de humanização, ninguém espera que haja sofrimento da nossa parte. A pressão e suas consequências são silenciadas, pois não convém. Assume-se que é parte da nossa personalidade ser esforçada, boa trabalhadora e passiva. Não reclamar também faz parte, por isso, é esperado o silêncio. É um silêncio resignado, pois acredita-se que é assim. A sociedade cobra e nós fazemos para manter essa imagem, para não decepcionar.

Uma forma de romper com esse ciclo vicioso é tentar tratar as pessoas amarelas da mesma forma que tratamos as demais. Não ter altas expectativas para não gerar sofrimento. É um exercício diário contra a generalização e estereotipagem dos amarelos. Numa sociedade que busca produtividade e rapidez acima da empatia, talvez o pedido seja demais, mas para quem deseja o melhor para a sociedade, vale a pena pensar sobre o assunto.

V

Por Verônica Yamada

médica oftalmologista, escritora e editora; ganhadora do Prêmio Talentos Helvéticos em 2023; autora de obras literárias incluindo "Tempos amarelos"

Artigo de opinião

👁️ 55 visualizações
🐦 Twitter 📘 Facebook 💼 LinkedIn
compartilhamentos

Comece a digitar e pressione o Enter para buscar

Comece a digitar e pressione o Enter para buscar