A infância “raiz” que não vira adulto “raiz”

Por que romantizar tombos, muros e parquinhos perigosos não explica quem nos tornamos

De tempos em tempos, a internet redescobre a mesma comparação:
a infância “de antigamente” versus a infância de hoje.

De um lado, parquinhos altos, toras de madeira, muros estreitos e crianças soltas no mato.
Do outro, playgrounds seguros, pisos emborrachados, cercas e adultos atentos.

A legenda costuma vir com ironia:
“Aqui as crianças podem morrer.”
“Aqui elas só se machucam.”
E o arremate triunfal: “Só se machucando é que se aprende.”

É provocativo. É engraçado.
Mas é uma explicação pobre para algo muito mais complexo.

A habilidade que não atravessou o tempo

Muita gente cresceu subindo em árvore, andando em muro e brincando em estruturas que hoje seriam impensáveis.
E, ainda assim, quando chega à vida adulta, percebe algo curioso: essas habilidades não são exigidas em lugar nenhum.

A vida adulta não cobra equilíbrio físico em altura.
Ela cobra equilíbrio emocional em situações invisíveis — conflitos, frustrações, decisões difíceis, relações que não dão certo.

Não é coincidência que estudos em psicologia do desenvolvimento mostrem que sofrimento físico não gera, por si só, adultos mais preparados. Em The Myth of the Spoiled Child, o educador Alfie Kohn desmonta a ideia de que dificuldade e dor constroem caráter. Para ele, crianças não se tornam mais fortes por sofrer mais, mas por crescerem em ambientes onde são respeitadas, ouvidas e desafiadas emocionalmente.

O que realmente molda o adulto

Quando olhamos para a literatura séria, o foco muda completamente.

O psiquiatra e pesquisador Gabor Maté, em Hold On to Your Kids, mostra que o fator mais determinante no desenvolvimento humano não é o nível de risco físico enfrentado na infância, mas a qualidade do vínculo emocional. Segurança afetiva, presença e conexão têm impacto muito mais duradouro do que qualquer tombo.

Já Carol Dweck, em Mindset, diferencia erro de trauma. Errar ensina — desde que o erro aconteça em um ambiente seguro. Dor excessiva, medo constante ou humilhação não fortalecem; ao contrário, geram bloqueios. Aprender exige desafio, mas não ameaça.

Ou seja: cair pode ensinar.
Machucar-se não é método.

Inteligência emocional pesa mais que cicatriz

Outro ponto que desmonta o romantismo da infância “raiz” vem da inteligência emocional. Em Emotional Intelligence, Daniel Goleman demonstra que o sucesso adulto está muito mais ligado à capacidade de autorregulação, empatia e resiliência emocional do que a experiências físicas desafiadoras na infância.

A vida adulta cobra saber lidar com:

  • frustração

  • ansiedade

  • conflitos interpessoais

  • pressão constante

Nada disso se aprende andando em muro.

E o argumento do risco físico?

Aqui vale o equilíbrio. A terapeuta ocupacional Angela Hanscom, em Balanced and Barefoot, defende que crianças precisam de movimento livre, variedade corporal e algum grau de risco. Mas ela fala de desenvolvimento neuromotor, não de formação moral ou sucesso futuro.

O problema, segundo Hanscom, não é o parquinho seguro — é o parquinho sem desafio algum.
Risco calculável não é o mesmo que risco romantizado.

🧠 O que dizem especialistas em desenvolvimento infantil

Pesquisas em psicologia, educação e neurociência indicam que não é o risco físico que molda adultos emocionalmente saudáveis, mas a combinação entre vínculo afetivo, autonomia progressiva e um ambiente seguro para errar.

Estudos e obras de referência mostram que:

  • Sofrimento e dor não constroem caráter por si só (The Myth of the Spoiled Child).

  • A qualidade das relações na infância tem impacto mais duradouro do que experiências físicas arriscadas (Hold On to Your Kids).

  • O aprendizado acontece quando o erro é possível, não quando ele gera medo ou trauma (Mindset).

  • Competências exigidas na vida adulta estão mais ligadas à inteligência emocional do que à exposição a perigos na infância (Emotional Intelligence).

O consenso atual aponta que desafios são importantes, mas devem ser proporcionais, contextualizados e emocionalmente seguros — não romantizados.

O verdadeiro perigo da nostalgia

O maior risco desses discursos virais não é defender que crianças se machuquem.
É sugerir que exista uma linha reta entre infância “perigosa” e adulto funcional.

A ciência não sustenta isso.

Não existe um modelo único de infância que garanta maturidade, sucesso ou equilíbrio emocional. Crianças criadas em contextos diferentes podem se tornar adultos igualmente competentes — ou igualmente frágeis.

A infância não é um investimento com retorno garantido.
É um tempo de existir, experimentar e ser cuidado.

No fim das contas

Talvez a pergunta certa não seja se as crianças de hoje estão protegidas demais.
Mas se estamos oferecendo desafios emocionais reais, ou apenas trocando riscos físicos por pressões invisíveis.

Crescer dói.
Mas não precisa doer do jeito errado.

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