Caso Banco Master: quando o crédito sem lastro expõe uma bolha potencial no sistema financeiro brasileiro
A quebra do Banco Master, ocorrida no fim de 2025, não foi apenas mais um episódio de má gestão bancária. Para analistas do mercado financeiro, o caso revelou indícios de um modelo perigoso: crescimento sustentado por créditos de lastro questionável, falhas regulatórias e um ambiente institucional incapaz de reagir com a velocidade necessária.
Com um rombo estimado em até R$ 12 bilhões e cerca de 1,6 milhão de investidores afetados, o episódio passou a ser visto como um alerta sobre como bolhas financeiras modernas podem se formar — não a partir de ativos sofisticados, mas de produtos bancários tradicionais, vendidos como seguros.
A engrenagem do esquema: crescimento artificial e lastro contestado
Segundo investigações em andamento, o funcionamento do Banco Master se apoiava em um ciclo que simulava solidez financeira:
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Captação agressiva
O banco oferecia CDBs e outros produtos de renda fixa com taxas muito acima da média de mercado, atraindo investidores em busca de retorno elevado em um ambiente de juros altos. -
Lastro financeiro sob questionamento
Para sustentar a expansão, surgiram indícios da cessão de créditos sem documentação robusta para o BRB, banco controlado pelo Governo do Distrito Federal. Essas operações teriam movimentado bilhões de reais e são hoje alvo de apuração por possíveis irregularidades na origem e no lastro dos ativos negociados. -
Atrasos na resposta institucional
O caso também levantou questionamentos sobre a lentidão regulatória e o peso de relações políticas e jurídicas de alto nível, que podem ter contribuído para postergar ações mais duras de fiscalização. O envolvimento de autoridades e a judicialização do tema ampliaram o debate sobre independência e governança no sistema financeiro.
Um padrão conhecido: quando a ficção supera o valor real
O episódio do Banco Master se encaixa em um padrão clássico observado em grandes crises financeiras: o descolamento entre valor percebido e valor real do ativo.
| Evento histórico | Ativo central | Mecanismo de distorção | Ruptura |
|---|---|---|---|
| Tulipomania (1637) | Bulbos de tulipa | Especulação social | Fim da demanda |
| Bolha da internet (2000) | Ações de empresas .com | Expectativas irreais | Falta de lucro |
| Crise do subprime (2008) | Títulos hipotecários | Crédito fácil e securitização | Inadimplência |
| Caso Banco Master (2025) | CDBs e créditos bancários | Lastro questionado e juros elevados | Intervenção regulatória |
A diferença central é que, no caso brasileiro, não se tratava de inovação financeira complexa, mas de instrumentos tradicionais que dependem essencialmente da confiança no emissor.
Fragilidades sistêmicas que permitem bolhas silenciosas
Especialistas apontam que o caso só ganhou essa dimensão porque encontrou um ambiente fértil para distorções:
| Área | Fragilidade | Impacto |
|---|---|---|
| Regulação fragmentada | Falta de integração entre BC e CVM | Visão parcial do risco |
| Capacidade operacional | Estruturas enxutas para ativos trilionários | Fiscalização reativa |
| Governança | Indicações políticas | Risco de captura regulatória |
| Uso do FGC | Garantia usada como argumento comercial | Falsa sensação de segurança |
Como resumiu um economista ouvido durante o caso:
“O sistema financeiro avança mais rápido do que os mecanismos de controle — e isso sempre cobra seu preço.”
Conclusão: um alerta que vai além de um banco
Embora o Banco Central tenha afirmado que a liquidação do Banco Master não representa risco sistêmico imediato, o episódio deixa uma lição incômoda: o modelo pode ser replicado.
Quando produtos bancários passam a ser vendidos como investimento “sem risco”, sustentados por garantias indiretas e fiscalização tardia, o sistema entra em território perigoso. A história econômica mostra que bolhas não anunciam quando vão estourar — apenas deixam sinais.
O caso Master talvez não tenha sido a crise.
Mas pode ter sido o ensaio geral.



