Healing Fiction: Escapismo ou Ferramenta de Cura Emocional?

Como a ficção de cura pode ajudar a enfrentar traumas e questionar a realidade sem oferecer respostas prontas

A healing fiction, ou ficção de cura, é um gênero literário que combina narrativas ficcionais com reflexões pessoais, visando levar conforto e cura emocional para os leitores. Diferencia-se de outros gêneros por apresentar, em geral, finais felizes que deixam aquele “quentinho” no coração de quem lê.

Como médica e escritora, acredito que tanto a escrita quanto a leitura podem ajudar na elaboração de traumas. Ao escrever sobre eles, colocamos em prática a “escrita terapêutica”, termo cunhado pelo psicólogo americano James Pannebaker na década de 1950. Ele conduziu estudos que mostraram que pessoas que escrevem sobre seus traumas lidam melhor com suas emoções do que aquelas que não têm esse hábito. Para os leitores do gênero healing fiction, observar como o personagem se cura pode proporcionar uma ferramenta para lidar com seus próprios problemas.

Em “A biblioteca da meia noite”, a personagem pode entrar em diferentes metaversos e experimentar outras vidas. Apesar de ser “ela”, são vidas completamente distintas, e ela percebe que só estaria plena em sua própria versão. Isso nos leva à reflexão de que precisamos agir para melhorar nossa vivência no aqui e agora.

Quando a ficção oferece o que a autoajuda já não entrega

Em “Tempos amarelos”, a protagonista se vê em coma após um episódio de burnout — no mundo fictício do livro, chamado b. Apesar de ser um universo que valoriza a produtividade acima de tudo e onde o status é muito importante, fica a pergunta: será que as pessoas precisam apenas trabalhar e abrir mão da vida? Essa questão não é tão distante da realidade. Trabalhamos para sobreviver e pagar contas, mas também lidamos com poder aquisitivo e status social. Estamos sempre nos comparando, numa corrida para chegar em primeiro lugar, mas onde está a linha de chegada?

Na minha visão, a ficção não precisa trazer todas as respostas, mas sim levantar questionamentos. Cada indivíduo terá sua própria conclusão. A função da healing fiction não é prescrever como superar um trauma, mas mostrar um caminho. O leitor decide se aquilo faz sentido para sua vida.

As pessoas estão cansadas de livros de autoajuda que, por vezes, trazem soluções fechadas demais. Cada pessoa é única, então por que as soluções seriam as mesmas para todos? Existem caminhos diferentes para indivíduos diferentes, e é nisso que acredito. Por isso, a healing fiction não oferece soluções mágicas, apenas apresenta formas ou processos de cura que talvez o leitor não tenha considerado antes. Levanta questionamentos para que cada um possa enxergar sua própria solução, além de trazer aquele “quentinho” para o coração.

V

Por Verônica Yamada

médica oftalmologista, escritora e editora

Artigo de opinião

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