Canetas emagrecedoras e coração: o que mudou de verdade com a liberação da Anvisa
Medicamentos antes vistos só como aliados da perda de peso agora entram no radar da cardiologia
Por muito tempo, as chamadas “canetas emagrecedoras” foram associadas quase exclusivamente à estética ou ao tratamento da obesidade. Mas isso mudou — e não por moda, e sim por ciência.
A Anvisa aprovou recentemente uma ampliação importante na indicação da semaglutida, princípio ativo de medicamentos como Wegovy e Ozempic: além da perda de peso, o uso passou a ser autorizado para reduzir o risco de eventos cardiovasculares graves, como infarto e AVC, em pacientes com doença cardiovascular estabelecida e excesso de peso.
Mas, se está aprovado, por que ainda existe tanta resistência?
O que a Anvisa efetivamente liberou
A decisão da Anvisa reconhece evidências científicas robustas mostrando que a semaglutida pode reduzir eventos cardiovasculares maiores quando usada em pacientes específicos:
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Adultos com doença cardiovascular já diagnosticada
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Com obesidade ou sobrepeso
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Em acompanhamento médico regular
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Associada a mudanças de estilo de vida e tratamento padrão
Importante: não se trata de um “remédio para o coração” isolado, nem de uso indiscriminado. É prevenção secundária — ou seja, para quem já tem risco elevado.
Então por que alguns médicos dizem que “ainda não pode”?
A resposta não está na lei, mas na cultura médica.
Na prática, não é necessária uma nova diretriz médica para que um medicamento aprovado em bula seja prescrito. A autorização da Anvisa já oferece respaldo legal, ético e regulatório.
Ainda assim, muitos cardiologistas preferem aguardar a atualização formal das diretrizes das sociedades médicas, como a Sociedade Brasileira de Cardiologia. Isso acontece por três motivos principais:
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Postura conservadora da cardiologia, que tradicionalmente espera consenso amplo
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Cautela jurídica, especialmente em hospitais de grande porte
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Tempo de assimilação clínica de terapias relativamente novas
Nada disso invalida a aprovação — apenas explica a divergência de condutas.
Não é estética. É inflamação, metabolismo e risco real
A obesidade hoje é reconhecida como doença inflamatória crônica, diretamente ligada a infarto, AVC, diabetes tipo 2 e insuficiência cardíaca.
Ao atuar em múltiplos mecanismos — controle glicêmico, redução de peso, diminuição da inflamação e melhora metabólica — a semaglutida deixou de ser apenas um medicamento para emagrecer. Ela passou a ser uma ferramenta de redução de risco.
E isso muda tudo.
O que esperar daqui para frente
A tendência é clara:
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Diretrizes serão atualizadas
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Protocolos hospitalares vão incorporar o uso
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A discussão sairá do “pode ou não pode” para o “para quem faz sentido”
Enquanto isso, a decisão final segue sendo médica, individualizada e baseada no perfil do paciente.
Em resumo
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✔️ A Anvisa já autorizou o uso com foco cardiovascular
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✔️ Não é uso experimental nem off-label
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⚠️ Ainda há resistência por cautela clínica, não por proibição
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🫀 O coração entrou, definitivamente, na conversa
A medicina está mudando — e, às vezes, mais rápido do que os consensos conseguem acompanhar.



