Antes era no pátio. Agora é no grupo: por que fingimos surpresa?

A violência entre adolescentes não surgiu na internet — ela só ganhou plateia, registro e silêncio adulto

De tempos em tempos, um novo caso choca. Circula em grupos, vira print, vídeo, manchete. A reação é quase automática: indignação coletiva, discursos sobre “o perigo das redes” e a sensação de que algo nunca visto antes está acontecendo com os adolescentes.

Mas está mesmo?

A verdade incômoda é outra: a violência entre adolescentes sempre existiu. O que mudou não foi o comportamento humano — foi o palco.


O que antes ficava no pátio agora fica registrado

Quem estudou em escola sabe.
Havia apelidos cruéis, exclusões silenciosas, humilhações públicas, agressões físicas e psicológicas. A diferença é que isso acontecia:

  • no pátio

  • no corredor

  • na saída da escola

  • longe de câmeras e timelines

Hoje, o cenário é outro:

  • grupos de WhatsApp

  • mensagens privadas

  • stories

  • vídeos compartilhados sem contexto e sem volta

A violência não aumentou porque a internet existe.
Ela ficou visível, permanente e amplificada.


O erro de tratar isso como novidade histórica

Toda geração acredita estar vivendo a pior adolescência da história.
É um padrão.

Nos anos 80, eram as “más influências”.
Nos 90, a “violência urbana”.
Nos 2000, os videogames.
Agora, as redes sociais.

O roteiro é sempre o mesmo:
quando algo incomoda, procura-se um vilão externo — de preferência tecnológico — e ignora-se o que realmente sustenta o problema.


A parte que quase ninguém quer dizer

👉 Crianças e adolescentes não se educam sozinhos.
👉 Algoritmos não ensinam empatia.
👉 Plataformas não substituem presença adulta.

Quando pais, responsáveis e tutores:

  • não sabem o que os filhos consomem

  • não acompanham com quem conversam

  • não colocam limites claros

  • não falam sobre consequência, dor e responsabilidade

O ambiente digital apenas reflete esse vazio.

A violência online é sintoma, não causa.


O problema não é o grupo. É o abandono

Grupos sempre existiram.
Panelinhas, turmas, exclusões também.

O que mudou é que hoje muitos adolescentes:

  • crescem com autonomia digital total

  • mas sem acompanhamento emocional

  • sem conversa real

  • sem adultos dispostos a sustentar desconforto

A internet não criou a crueldade.
Ela removeu o filtro social que antes freava o excesso.


Infantilizar adolescentes também é um erro

Outro equívoco comum é tratar adolescentes como se fossem incapazes de entender consequências.

Eles estão em formação, sim.
Mas isso não significa ausência total de responsabilidade.

Educar não é:

  • vigiar obsessivamente

  • nem terceirizar tudo para escola ou plataforma

Educar é:

  • participar

  • conversar

  • colocar limites

  • ensinar que escolhas têm impacto real

Inclusive online.


O choque não deveria ser o comportamento — mas a surpresa

Talvez a pergunta correta não seja
“como isso pôde acontecer?”

Mas sim:

por que fingimos surpresa toda vez?

Fingimos surpresa porque admitir o óbvio é desconfortável:
a ausência adulta cobra seu preço.


O que realmente ajudaria

Menos pânico moral.
Menos discurso genérico.
Mais presença real.

Isso inclui:

  • interesse genuíno pela vida digital dos filhos

  • diálogo contínuo, não interrogatório após crise

  • limites claros de uso

  • educação emocional desde cedo

  • responsabilidade compartilhada, não terceirizada


Em resumo

  • A violência juvenil não nasceu nas redes

  • A internet ampliou e registrou o que já existia

  • O problema central não é tecnologia, é ausência

  • Pais e responsáveis continuam sendo peça-chave

  • Fingir surpresa não protege ninguém

Antes era no pátio.
Agora é no grupo.

A pergunta que fica não é “onde aconteceu”,
mas quem estava presente quando deveria estar.

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