Quando crescer vira “suspeito”: o problema de chamar MEI de fraudador
Empreender no Brasil já é difícil. Ser pequena e crescer um pouco pode ser ainda pior.
Nos últimos dias, voltou a circular a ideia de que MEIs que faturam mais estariam cometendo fraude. O argumento parece simples, quase didático. Mas, na prática, ele mistura conceitos diferentes — e cria um clima de medo que atinge justamente quem está tentando fazer o certo.
Vamos colocar as coisas no lugar, sem juridiquês e sem pânico.
O que o MEI foi criado para ser (e o que virou)
O MEI nasceu como porta de entrada:
formalizar quem estava na informalidade, reduzir burocracia e permitir que pequenos negócios começassem a caminhar.
O problema é que, com o tempo:
-
o limite de faturamento ficou defasado;
-
a economia mudou;
-
os meios de pagamento ficaram digitais;
-
e o controle fiscal se tornou extremamente sofisticado.
Resultado: muitos negócios crescem mais rápido do que o modelo do MEI permite — não por má-fé, mas por sobrevivência.
Faturar mais é erro? Ou é crime?
Aqui está a confusão central.
Ultrapassar o limite do MEI não é fraude automaticamente.
Na maioria dos casos, é:
-
uma irregularidade administrativa;
-
que leva ao desenquadramento;
-
com cobrança de impostos ajustados.
Fraude só existe quando há intenção de enganar:
abrir MEIs em nome de terceiros, esconder faturamento deliberadamente, fragmentar receitas de forma consciente.
Crescer não é crime.
Fingir que não cresceu, sabendo, pode ser.
São coisas bem diferentes.
Por que os números “explodiram” agora?
Muita gente se assusta com os dados recentes de desenquadramento. Mas há um detalhe essencial:
A fiscalização mudou.
Hoje, a Receita cruza:
-
PIX,
-
cartões,
-
marketplaces,
-
notas fiscais,
-
movimentações bancárias.
Isso não significa que milhões de pessoas “viraram sonegadoras” de um ano para o outro.
Significa que o radar ficou mais preciso.
Quando o método muda, os números sobem. É estatística, não julgamento moral.
O risco de chamar tudo de fraude
Quando a narrativa vira “MEI que fatura mais é fraudador”, acontece algo perigoso:
-
pessoas têm medo de crescer;
-
pequenos negócios evitam investir;
-
a informalidade volta a parecer mais segura;
-
empreender vira um jogo de culpa, não de evolução.
No fim, quem perde é quem está tentando construir algo legítimo.
Como crescer sem dor de cabeça (e sem paranoia)
Alguns cuidados simples reduzem drasticamente o risco de problemas:
-
acompanhar o faturamento mês a mês;
-
separar conta pessoal da conta do negócio;
-
somar todas as maquininhas e chaves PIX;
-
usar nota fiscal como aliada de controle;
-
planejar a migração para microempresa quando o crescimento for consistente.
Crescer com planejamento é muito mais barato — emocional e financeiramente — do que crescer no susto.
No fundo, a pergunta certa é outra
Talvez o debate não devesse ser:
“Por que tantos MEIs faturam mais?”
Mas sim:
Por que o modelo não acompanha a realidade de quem cresce?
Empreender não deveria ser sinônimo de viver sob suspeita.
Deveria ser sinônimo de autonomia, evolução e escolha.
Crescer não é fraude.
É sinal de que algo está dando certo.




