Saúde mental, desigualdade e a urgência de uma Política Nacional do Cuidado
Como a sobrecarga do trabalho de cuidado, a precarização laboral, a desigualdade de renda e a toxicidade digital convergem para adoecer a população e por que é necessário reconhecer o cuidado como política pública.
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O Janeiro Branco chega como um chamado à responsabilidade sobre a saúde mental. Contudo, esse chamado só será verdadeiramente efetivo se deslocarmos o debate da esfera puramente individual para o centro de nossas estruturas sociais, econômicas e políticas. A saúde mental de uma nação é o reflexo de sua Justiça Social. E o que vemos nesse espelho, hoje, é a imagem da desigualdade.
Para entendê-la melhor, precisamos falar sobre CUIDADO. O cuidado — com nossos filhos, nossos idosos, nossas pessoas com deficiência — é a viga mestra da Dignidade Humana, a argamassa que sustenta a sociedade. No Brasil, essa estrutura é mantida, em grande parte, pelo trabalho não remunerado e subvalorizado das mulheres. Dados da pesquisa “Estatísticas de Gênero” do IBGE são avassaladores: mulheres dedicam quase o dobro do tempo (21,4 horas semanais) aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, em comparação com os homens (11 horas).
Ainda, quando aplicamos a lente da raça, a injustiça se aprofunda sobremaneira. São as mulheres negras que arcam com a carga mais pesada. Segundo o IPEA, mulheres negras dedicam, em média, 7,7 horas a mais por semana ao trabalho de cuidado do que homens brancos. Elas representam a maior parte (65%) das trabalhadoras domésticas, uma categoria marcada pela informalidade e baixa remuneração.
Essa sobrecarga crônica não é apenas fonte de cansaço físico; é um fator de adoecimento psíquico clinicamente diagnosticado: estresse crônico, ansiedade, depressão e burnout. O Estado, ao se omitir, privatiza uma responsabilidade coletiva, depositando-a nos ombros de quem já carrega o peso histórico do racismo e do machismo estrutural.
A essa crise do cuidado, somam-se duas outras forças corrosivas: a precarização do trabalho e a desigualdade de renda. A “uberização” da economia e a informalidade, que atinge quase 40% da força de trabalho no país, criam uma legião de trabalhadores sem direitos, sem previsibilidade e sem rede de proteção. Como pode um indivíduo cuidar de sua saúde mental quando não sabe se terá renda no fim do mês? A insegurança econômica é, em si, uma forma de violência psicológica.
A desigualdade de renda no Brasil, com os 1% mais ricos detendo 28,3% da renda nacional (World Inequality Report), transforma o acesso à saúde mental, incluídos o lazer, o esporte e os tratamentos — como terapia e psiquiatria — em um privilégio de classe, e não em um Direito Universal de Saúde.
Como se não bastasse, vivemos imersos em uma terceira crise: a da sensualidade digital. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o país com a maior prevalência de transtornos de ansiedade do mundo, afetando quase 10% da população.
As redes sociais, em seu atual modelo desregulado, operam como uma arapuca de ansiedade. Não por acaso, o brasileiro passa, em média, mais de 9 horas por dia online, sendo um dos povos que mais consomem redes sociais globalmente. A performance da felicidade, o culto à imagem perfeita e a comparação social constante criam um ambiente tóxico para a autoestima.
Esse ecossistema digital é o motor de um consumismo desenfreado, que nos ensina a buscar alívio para nossas angústias na próxima compra. Em um país com mais de 70% das famílias endividadas, essa pressão consumista adiciona uma camada de frustração e inadequação, um lembrete constante do que não se pode ter.
O cenário é complexo: a saúde mental no Brasil adoece na confluência perversa entre o cuidado desbalanceado, o trabalho precário, a desigualdade abissal e a toxicidade digital.
É por isso que a articulação por uma Política Nacional do Cuidado robusta e efetiva é uma das pautas mais urgentes e civilizatórias de nosso tempo. Reconhecer que cuidar é trabalho, remunerá-lo dignamente, e criar uma infraestrutura pública de suporte (com creches, centros-dia para idosos, residências inclusivas, entre outros equipamentos e políticas) não é apenas uma questão de Justiça de gênero e raça. É uma Política de Saúde Mental!
Enquanto sociedade, precisamos construir mobilizações responsáveis que distribuam o fardo do cuidado com Justiça. Defender a regulação das plataformas digitais e combater o consumismo como falsa solução são, também, agendas de Saúde Pública.
O Janeiro Branco nos força a enxergar que não haverá paz de espírito individual enquanto persistir a guerra cruenta da desigualdade estrutural. A forma mais legítima e duradoura de cuidar de si mesmo e da própria saúde mental é lutar por uma sociedade onde o cuidado seja um ato coletivo, um compromisso de todos, e um pilar de nossa humanidade comum.
Por André Naves
Defensor Público Federal; especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política
Artigo de opinião



