Por que algumas empresas brasileiras dão certo — e outras nunca saem do lugar
O caso da Embraer, e o que ela revela sobre o sucesso (e o fracasso) no Brasil
Sempre que uma empresa brasileira se destaca no mundo, surge a mesma reação: surpresa.
Como se sucesso fosse uma exceção estatística num país “condenado” à improvisação.
Mas a pergunta correta não é por que algumas empresas brasileiras dão certo.
É por que tão poucas conseguem.
A Embraer é o exemplo mais conhecido — e não está sozinha. Há empresas brasileiras altamente competitivas, tecnológicas e globais. O curioso é que elas não seguem o padrão médio do capitalismo brasileiro.
E isso diz muito.
A Embraer não é um milagre. É um desvio do padrão.
A Embraer não virou referência mundial por acaso, nem por “jeitinho”.
Ela fez o oposto do que costuma dar errado no Brasil:
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investiu pesado em engenharia
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manteve foco de longo prazo
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competiu globalmente desde cedo
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criou cultura técnica, não personalista
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operou com padrão internacional, não local
Enquanto muitas empresas brasileiras pensam primeiro em:
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proteção
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incentivos
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reserva de mercado
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relação com o Estado
A Embraer pensou em:
produto, escala, eficiência e reputação global.
Isso muda tudo.
Outras brasileiras que funcionam — pelo mesmo motivo
Empresas como:
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WEG
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Natura
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TOTVS
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Ambev (apesar das controvérsias)
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Suzano
têm algo em comum:
📌 não operam como empresas “feitas só para o Brasil”
Elas competem:
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em preço
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em qualidade
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em tecnologia
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em logística
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em governança
Não dependem de discurso patriótico nem de proteção eterna.
Agora, o outro lado (sem citar nomes… mas todo mundo reconhece)
O Brasil também é cheio de empresas que:
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crescem protegidas
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vivem de incentivo
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tratam inovação como marketing
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confundem escala com monopólio
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confundem gestão com centralização
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confundem cultura com carisma do dono
São empresas que:
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funcionam bem no Brasil
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e mal em qualquer outro lugar
Quando tentam internacionalizar, travam.
Quando o cenário muda, quebram.
Quando a concorrência chega, reclamam.
O problema não é falta de talento. É excesso de curto prazo.
O Brasil forma bons engenheiros, designers, gestores e técnicos.
O gargalo não é humano — é estrutural.
Muitas empresas brasileiras:
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pensam em trimestre, não em década
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evitam risco tecnológico
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preferem lobby a inovação
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veem custo, não investimento
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querem previsibilidade sem eficiência
Empresas como a Embraer fizeram o contrário:
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aceitaram ciclos longos
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bancaram P&D caro
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erraram, corrigiram, insistiram
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jogaram o jogo global
O mito de que “empresa brasileira não consegue competir”
Consegue, sim.
O que não consegue é competir:
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sem profissionalização
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sem governança
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sem investimento real
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sem abrir mão do controle absoluto
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sem tolerar incerteza
O sucesso da Embraer não é exceção genética.
É exceção cultural e estratégica.
A pergunta incômoda que fica
Se algumas conseguem, então o problema não é o país inteiro.
É o modelo mental dominante.
Talvez o maior erro seja achar que:
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crescer protegido é crescer
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sobreviver é vencer
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faturar é competir
Não é.
Em resumo (sem romantizar)
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O Brasil produz empresas globais
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Elas dão certo quando jogam o jogo global
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Falham quando tentam adaptar o mundo ao Brasil
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A Embraer não venceu apesar da complexidade
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Venceu porque decidiu não ser média
Ou, numa frase direta:
O Brasil não impede o sucesso.
Ele só pune quem tenta vencer sem mudar de mentalidade.


