O silêncio dos embaixadores do Will Bank e a ética publicitária
Quando celebridades endossam instituições financeiras, há uma obrigação moral de proteger consumidores vulneráveis — o caso do Banco Master expõe essa falha.
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Por Lilian Carvalho, PhD em Marketing e coordenadora do Centro de Estudos em Marketing Digital da FGV
A expressão francesa noblesse oblige carrega uma ideia simples, a de que o pivilégio implica dever. Quem se mantém em posição de riqueza ou prestígio, portanto, tem a obrigação moral de agir com responsabilidade em relação aos vulneráveis. No Século XXI, isso significa que celebridades e, no atual momento, os chamados influenciadores digitais não podem simplesmente emprestar o rosto para qualquer marca que pague bem. Deveriam oferecer bons exemplos, transparência e padrões mais altos de conduta pública.
O Will Bank, banco digital do grupo Master, surfou na onda da inclusão financeira de forma bastante agressiva, mas o resultado final evidenciou a fragilidade desse discurso. Enquanto os famosos embolsavam seus cachês milionários, os clientes de baixa renda, aqueles que a instituição dizia servir, ficaram expostos aos riscos de um conglomerado que acabou liquidado.
Será que Luciano Huck, Belo, Hulk ou Vini Jr. fizeram a lição de casa antes de aceitar o contrato? Será que investigaram a saúde financeira do Master ou simplesmente confiaram nos assessores jurídicos e de marketing?
Essas perguntas, das quais podemos supor respostas óbvias, deixam uma lição importante sobre o papel da figura pública em ações publicitárias que vão além do mero consumo e tocam em questões ainda mais profundas e sensíveis. Neste caso, a vida financeira de um cidadão comum.
Não se trata de criminalizar a publicidade ou transformar celebridades em auditores do Banco Central. Trata-se de reconhecer que influência pública vem acompanhada de responsabilidade social. Quando um artista ou atleta com milhões de seguidores recomenda um banco para pessoas de baixa renda, ele não está apenas fechando um contrato comercial. Ali, também é exercido um poder simbólico sobre decisões financeiras que podem impactar famílias por muitos anos.
Esse caso expõe a fragilidade do discurso corporativo que vende inclusão enquanto entrega castelos de areia. Mais do que isso, evidencia a omissão das celebridades que preferem delegar a “diligência” a terceiros. Na prática, o noblesse oblige contemporâneo exige que quem empresta credibilidade também assuma riscos reputacionais. Afinal, o público das classes C e D confiou nessas figuras porque as vê como referências de sucesso e integridade.
Até o momento, nenhum dos embaixadores do Will Bank se manifestou publicamente sobre a liquidação do Banco Master. O silêncio é compreensível do ponto de vista jurídico, considerando que qualquer declaração pode gerar processos, mas é moralmente indefensável. Se o privilégio de ganhar milhões em cachês publicitários não vier acompanhado do dever de prestar contas ao público traído, o conceito de noblesse oblige vira letra morta.
A urgência, agora, é de que o Brasil avance o debate sobre ética publicitária no setor financeiro. Enquanto isso não acontece, cabe ao público exercer pressão, cobrar posicionamento, questionar parcerias e, sobretudo, desconfiar de promessas fáceis vendidas por rostos famosos. Porque no fim das contas, quando o banco quebra, quem paga a conta não é a celebridade. É sempre o povo.
Por Lilian Carvalho
PhD em Marketing; coordenadora do Centro de Estudos em Marketing Digital da FGV
Artigo de opinião



