Talento é superestimado: o sucesso celebra privilégios, não processos

Jonathas Groscove argumenta que permanência e acesso, mais que mérito individual, explicam trajetórias de sucesso.

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Por trás das histórias inspiradoras de genialidade, idiomas e carreiras brilhantes existe um fator raramente discutido: acesso, permanência e privilégio.

Em entrevistas, eventos e redes sociais, histórias de pessoas que falam múltiplos idiomas, transitam entre culturas e constroem trajetórias admiradas costumam ser celebradas como prova de talento extraordinário, disciplina e força de vontade. O que quase nunca aparece é o bastidor: quantas oportunidades existiram, quantas redes de apoio sustentaram o caminho, e quantas pessoas ficaram pelo meio por nunca terem tido acesso ao mesmo processo.

Ao observar trajetórias reais ao longo de sua atuação com comportamento humano e desenvolvimento, Jonathas Groscove, publicitário e estrategista digital, identificou um padrão recorrente: nem todos desistem porque querem, muitos desistem porque não conseguem permanecer.

Durante décadas, o sucesso foi romantizado como resultado exclusivo de mérito individual. Mas uma análise mais profunda do comportamento humano revela uma verdade incômoda: resultados sustentáveis não nascem do talento, e sim da possibilidade de permanecer em processos ao longo do tempo, algo historicamente disponível para poucos.

“A gente ama celebrar o resultado, mas ignora o caminho. E quando ignora o caminho, ignora também quem nunca teve chance de percorrê-lo”, afirma Jonathas Groscove, especialista em comportamento humano digital e posicionamento estratégico.

Dominar 11 idiomas, por exemplo, não é apenas consequência de cursos ou métodos de ensino. É fruto de vivências culturais, deslocamentos, convivência contínua com diferentes contextos e, principalmente, da chance de não precisar interromper o próprio desenvolvimento para sobreviver.

Para pessoas pertencentes a grupos historicamente minorizados, o acesso a viagens, intercâmbios, formações e ambientes de aprendizado sempre foi mais limitado. Muitas trajetórias não são interrompidas por falta de capacidade, mas por ausência de estrutura, incentivo, acolhimento e sustentação emocional e financeira.

“A meritocracia virou uma forma elegante de culpar quem não teve acesso ao processo”, provoca o empresário. “Quando alguém precisa provar seu valor o tempo inteiro, o aprendizado deixa de ser crescimento e passa a ser desgaste”, completa Jonathas.

A desistência precoce, frequentemente rotulada como falta de foco ou disciplina, revela um ponto pouco discutido: sobreviver em ambientes que não foram pensados para você custa mais energia, mais esforço e mais solidão. E esse custo raramente entra na conta quando histórias de sucesso são celebradas.

Viajar, aprender idiomas e conviver com culturas diferentes permite compreender algo essencial: cada pessoa carrega um ritmo próprio, e medir trajetórias com a mesma régua é uma distorção perigosa, especialmente em empresas, escolas e instituições que dizem buscar diversidade e impacto social.

“Processo não é sobre velocidade. É sobre permanência. E permanência só existe quando há estrutura, pertencimento e tempo”, reforça Jonathas.

Enquanto empresas, instituições e a própria sociedade continuarem celebrando apenas resultados, sem revisar os processos que os sustentam, seguiremos confundindo privilégio com mérito e inspiração com exceção.

Porque compreender processos é compreender pessoas.
E compreender pessoas é o primeiro passo para construir uma sociedade mais justa, eficiente e verdadeiramente humana.

J

Por Jonathas Groscove

publicitário; estrategista digital; especialista em comportamento humano digital e posicionamento estratégico; influenciador digital; empresário brasileiro

Artigo de opinião

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