Energia, areia e ilusões: quando a Europa projetou o futuro como se a história tivesse acabado

Projetos energéticos inovadores revelam eficiência técnica, mas também expõem uma fragilidade estratégica num mundo cada vez menos previsível.

Recentemente, uma reportagem da DW mostrou uma pequena cidade no norte da Finlândia que encontrou uma solução engenhosa para um velho problema da energia renovável: o excesso de produção. O calor gerado por turbinas eólicas e painéis solares é armazenado em grandes silos de areia feita a partir de pedra-sabão. Essa “usina de areia” aquece a água que, por sua vez, abastece o sistema de aquecimento dos prédios da cidade.

Do ponto de vista técnico, o projeto é quase impecável. Do ponto de vista estratégico, ele levanta uma pergunta desconfortável: em que tipo de mundo essa solução foi pensada para existir?

A genialidade técnica

A ideia resolve um dos principais gargalos das energias renováveis: a intermitência. Quando há vento ou sol em excesso, a energia não se perde. Ela vira calor, fica armazenada e é usada quando a cidade precisa.

É eficiente, relativamente barata, sustentável e elegante. Um exemplo clássico de engenharia europeia: racional, precisa e ambientalmente correta.

Mas engenharia não vive isolada. Ela depende de contexto político, social e geopolítico.

O pressuposto silencioso: estabilidade permanente

Projetos como esse partem de uma premissa implícita: o sistema nunca vai falhar de forma abrupta. Não haverá guerra, sabotagem, colapso energético, ataque cibernético ou ruptura prolongada.

Essa visão não surgiu por acaso. Ela é fruto direto da Europa do pós-Segunda Guerra Mundial, que decidiu reorganizar sua existência em torno de três pilares:

  • interdependência econômica,

  • instituições multilaterais,

  • e a crença de que grandes conflitos haviam ficado no passado.

Durante décadas, isso funcionou. A paz virou norma. A guerra, exceção distante.

O problema é que o mundo mudou — e rápido.

Centralização: eficiência que vira vulnerabilidade

Sistemas centralizados são maravilhosos enquanto tudo funciona. Mas, quando falham, falham em bloco.

Uma usina de areia desativada não significa um bairro sem aquecimento. Significa uma cidade inteira vulnerável — e, no norte da Europa, isso não é desconforto: é risco real à vida.

Num cenário de crise:

  • um ataque híbrido,

  • um drone barato,

  • uma sabotagem física,

  • ou um ataque digital à rede elétrica,

o impacto não é pontual. É sistêmico.

A obsessão por eficiência eliminou algo essencial em tempos instáveis: redundância.

A Europa acreditou que a história havia terminado

Ao longo dos anos, a Europa internalizou uma ideia perigosa: a de que segurança é garantida por regras, tratados e racionalidade coletiva. A defesa foi terceirizada. A dissuasão, diluída. A capacidade de resposta, fragmentada.

Enquanto isso, outras potências pensaram diferente:

  • os Estados Unidos mantiveram redundância e excesso,

  • a China apostou em controle e verticalização,

  • a Rússia apostou em força bruta e disrupção.

A Europa apostou na normalidade eterna.

O mundo atual não premia eficiência pura

Hoje, o mundo é:

  • multipolar,

  • instável,

  • marcado por guerras híbridas,

  • crises energéticas,

  • sabotagens,

  • e chantagem estratégica.

Nesse cenário, o sistema mais eficiente não é o melhor — é o mais resiliente.

Redundância custa caro. Descentralização parece ineficiente. Estoques parecem desperdício. Até o dia em que deixam de parecer.

A dúvida sobre a defesa europeia não é preconceito

Quando se questiona se a Europa conseguiria se proteger sem os Estados Unidos, não se trata de provocação ideológica, mas de análise objetiva:

  • forças armadas fragmentadas,

  • baixa capacidade industrial bélica,

  • dependência tecnológica,

  • populações envelhecidas,

  • e sociedades pouco preparadas para sacrifício prolongado.

A Europa é excelente em governança. Mas dissuasão exige algo mais duro do que consenso.

O paradoxo final

A mesma mentalidade que criou cidades aquecidas por areia, sistemas eficientes e políticas ambientais avançadas é a que subestima cenários de ruptura.

O mundo, porém, não está cooperando com essa visão.

Talvez a transição energética seja inevitável.
Talvez seja necessária.
Mas ela não será honesta enquanto continuar sendo pensada como se a história tivesse acabado — quando, na verdade, ela voltou a acelerar.

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