Terras raras: o nome bonito de uma mineração nada verde
Apesar do discurso sustentável, a corrida global pelas chamadas “terras raras” esconde um dos processos industriais mais poluentes do planeta.
A expressão “terras raras” soa quase poética. Algo escasso, valioso, estratégico. Mas a realidade é bem menos elegante. Essas matérias-primas, fundamentais para celulares, carros elétricos, turbinas eólicas e baterias, não são raras — e tampouco verdes.
O que realmente existe é uma narrativa conveniente, usada para justificar impactos ambientais que poucos países estão dispostos a assumir publicamente.
O que são, afinal, as chamadas terras raras?
As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos usados principalmente em tecnologia de ponta. Estão presentes em praticamente tudo que define o mundo moderno: smartphones, painéis solares, equipamentos médicos, sistemas de defesa e veículos elétricos.
O detalhe pouco divulgado é que esses elementos são relativamente abundantes na crosta terrestre. Alguns, inclusive, aparecem em maior quantidade do que metais tradicionalmente explorados, como o cobre ou o chumbo.
Então por que o nome?
O problema não é a escassez, é o processo
O desafio das terras raras não está na extração, mas no refino.
Separar esses elementos exige processos químicos complexos, caros e altamente poluentes, que envolvem grandes volumes de água, ácidos fortes e, em muitos casos, rejeitos com material radioativo.
Em outras palavras:
não falta terra — falta disposição para lidar com a sujeira.
É justamente nesse ponto que o discurso “verde” começa a desmoronar.
Mineração limpa na vitrine, poluição no bastidor
Países desenvolvidos adoram falar em transição energética, mas evitam o trecho menos fotogênico da história. O resultado é a terceirização ambiental.
A China assumiu esse papel por décadas, concentrando mineração e refino, ao custo de rios contaminados, solos degradados e regiões inteiras comprometidas ambientalmente. Hoje, domina a cadeia global dessas matérias-primas.
Mais recentemente, países como o Chile entram no radar internacional, pressionados pela demanda crescente por minerais “estratégicos” — muitas vezes com licenças ambientais flexibilizadas em nome do progresso tecnológico.
A lógica é simples:
o impacto fica local, o lucro se espalha globalmente.
“Terras raras” como estratégia de narrativa
O termo ajuda. E muito.
Chamar esse processo de “mineração química altamente poluente” não cairia bem em campanhas de sustentabilidade. Já “terras raras” cria urgência, valor estratégico e uma sensação de inevitabilidade.
Funciona como um amortecedor moral:
se é essencial para o futuro, os danos parecem mais aceitáveis.
O paradoxo da transição verde
A transição energética é importante, mas não é mágica. Painéis solares, carros elétricos e turbinas eólicas não surgem do nada — surgem de minas, produtos químicos e impactos ambientais reais.
O problema não está em avançar tecnologicamente, mas em fingir que esse avanço acontece sem custo.
Quando a poluição acontece longe, ela parece menor. Quando recebe um nome elegante, fica ainda mais fácil de ignorar.
No fim das contas
As chamadas terras raras não são raras, nem limpas.
São apenas politicamente convenientes.
Talvez o futuro seja mais sustentável. Mas ele não começa sendo honesto se insistirmos em esconder a lama atrás de nomes bonitos.



