O impacto da saúde mental nos afastamentos e na produtividade no trabalho
Como a sobrecarga cognitiva, a comunicação deficiente e a pressão por eficiência afetam o bem-estar nas organizações
Os transtornos mentais respondem por um aumento de 143% nos afastamentos do trabalho, segundo dados de 2025 do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Embora o tema ganhe maior visibilidade durante o Janeiro Branco, campanha dedicada à saúde mental, os números indicam que o desafio é permanente. Em escala global, a Organização Mundial da Saúde estima que mais de 1 bilhão de pessoas vivam com algum transtorno mental, com ansiedade e depressão entre as condições mais prevalentes.
Clara Cecchini, especialista em aprendizagem e inovação, propõe incluir uma dimensão ainda pouco nomeada nas discussões sobre bem-estar: a saúde cognitiva. Apesar de a saúde mental ser um fenômeno multifatorial, ela alerta que o foco excessivo em sintomas e diagnósticos pode obscurecer os efeitos de ambientes profissionais marcados pelo excesso. “Não se trata apenas de exaustão emocional. Observa-se sobrecarga mental persistente, decisões tomadas de forma automática e experiências de aprendizagem que não se transformam em compreensão”, comenta.
Ela defende que cuidar da saúde mental também envolve qualificar a forma de pensar, aprender e decidir. “O Janeiro Branco pode, portanto, ser também um convite à consciência sobre como a mente é utilizada. Não se trata de silenciar o cérebro, mas de acioná-lo com mais intenção, um cuidado discreto, porém estruturante, para atravessar tempos de excesso sem perder o essencial”, explica.
A pressão crescente sobre a saúde mental no trabalho está diretamente ligada à forma como a eficiência vem sendo interpretada dentro das organizações. Para Patricia Ansarah, CEO do Instituto Internacional de Segurança Psicológica (IISP), o avanço tecnológico trouxe ganhos significativos de produtividade, mas também evidenciou um desequilíbrio entre desempenho operacional e limites humanos. “A eficiência nunca esteve tão alta dentro das empresas. A automação reduziu erros, acelerou processos e ampliou a capacidade produtiva. Mas, paradoxalmente, os indicadores humanos caminham na direção oposta, com times mais cansados, concentração fragmentada, aumento do estresse e queda da energia subjetiva necessária para pensar, criar e decidir”, comenta.
Segundo Patricia, esse cenário ultrapassa a esfera individual e deve ser compreendido como um risco organizacional. “A exaustão mental não é apenas um problema de saúde, é um risco organizacional”, afirma, ao associar altos níveis de estresse à queda de produtividade, à redução do engajamento e ao aumento da intenção de desligamento.
Já Vivian Rio Stella, pós-doutora em Linguística, chama a atenção para outro fator frequentemente subestimado nesse contexto: a comunicação. Ela observa que, embora o Janeiro Branco evoque imagens de pausa e autocuidado, no ambiente corporativo o desgaste emocional muitas vezes se origina da forma como as pessoas se comunicam ou deixam de se comunicar. “Palavras mal escolhidas, omitidas ou ambíguas podem gerar desgaste emocional contínuo”, observa.
Para Vivian, esse silêncio é estrutural e contrasta com o discurso empresarial que posiciona a comunicação como uma competência estratégica. Para que ela deixe de ser fonte de insegurança e passe a atuar como elemento de cuidado, defende práticas objetivas e consistentes. “Priorizar mensagens objetivas, com critérios, prazo e expectativas claros, mesmo em temas sensíveis; tornar as conversas frequentes, previsíveis e abertas à escuta, reduzindo o peso emocional; comunicar decisões, mudanças e prioridades de forma consistente”, conclui.
Por Clara Cecchini
Especialista em aprendizagem e inovação, graduada em Artes Cênicas pela UNICAMP, MBA pela Fundação Getúlio Vargas, formação complementar na Kaospilot e Schumacher College, experiência de 20 anos em inovação e design, especializada em educação corporativa e aprendizagem organizacional
Artigo de opinião



