Inteligência Artificial: Eficiência Inédita ou Ameaça ao Emprego?

Como a IA está transformando funções, criando novas oportunidades e o risco de adoção equivocada que pode prejudicar empresas

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As recentes demissões anunciadas pelo Mercado Livre reacenderam o debate sobre o impacto da inteligência artificial (IA) no emprego, colocando a tecnologia no centro das discussões sobre produtividade e mercado de trabalho. A empresa confirmou o desligamento de 119 funcionários na América Latina, sendo 38 no Brasil, em áreas ligadas à experiência do usuário, associando o movimento à ampliação do uso de ferramentas de IA.

Embora a companhia negue a substituição direta de pessoas por tecnologia e classifique a decisão como uma “medida pontual”, o episódio evidencia como a automação já começa a redesenhar funções qualificadas dentro das empresas. Esse fenômeno é parte de um cenário mais amplo: o avanço acelerado da IA reacende temores de desemprego em massa, mas dados recentes indicam uma realidade mais complexa. Levantamento da OCDE mostra que menos de 10% dos postos de trabalho apresentam alto risco de automação total. Na maioria das ocupações, a tecnologia substitui tarefas específicas, não empregos inteiros, exigindo novas competências digitais, analíticas e comportamentais.

A reação a casos como o do Mercado Livre costuma confundir transformação com eliminação. A inteligência artificial automatiza atividades repetitivas e operacionais, mas isso não significa eliminar profissionais. O que está acontecendo é uma reorganização do trabalho dentro das empresas, com novas responsabilidades e exigências de qualificação.

Essa reorganização já é perceptível em áreas como atendimento, vendas, operações administrativas e suporte técnico. Sistemas de IA passaram a assumir triagens iniciais, análises de dados e respostas padronizadas, enquanto cresce a demanda por profissionais capazes de interpretar informações, tomar decisões e lidar com situações complexas. Pesquisa da PwC indica que 73% dos consumidores brasileiros consideram a experiência tão importante quanto preço ou produto, reforçando a centralidade do fator humano nos pontos críticos da jornada.

O maior risco está na adoção da tecnologia com foco exclusivo na redução de custos. Estudo da FGV aponta que empresas que tratam áreas como atendimento e operações apenas como centro de custo enfrentam maior dificuldade para capturar ganhos sustentáveis com a digitalização. Nesses casos, a automação tende a gerar perda de qualidade, aumento de retrabalho e desgaste da reputação.

Esse erro é recorrente no mercado brasileiro. Quando a IA é usada apenas para enxugar estruturas, o ganho costuma ser momentâneo. A empresa perde eficiência, engajamento interno e capacidade de adaptação. A tecnologia gera valor quando libera as pessoas do operacional e permite que atuem em atividades de maior impacto estratégico.

Os efeitos positivos aparecem quando a inteligência artificial é integrada a uma agenda de crescimento. Projeções do Banco Central indicam expansão de 2,1% no setor de serviços em 2025, impulsionada pela digitalização e pela demanda por experiências mais personalizadas. Nesse contexto, a IA tem sido utilizada para ampliar produtividade, criar novos modelos de trabalho e aumentar a geração de renda em segmentos antes limitados por escala ou custo.

A transformação também abre espaço para novas ocupações. Relatórios internacionais apontam crescimento na demanda por analistas de dados, especialistas em automação, gestores de produtos digitais, designers de experiência e profissionais híbridos, que combinam conhecimento técnico e visão de negócio. As profissões não estão acabando. Elas estão mudando.

O debate sobre desemprego em massa acaba desviando a atenção do ponto central. O problema não é a IA tirar vagas, é a falta de preparo das empresas e das pessoas para esse novo cenário. Quem investe em capacitação, redesenho de processos e uso responsável da tecnologia tende a gerar mais produtividade, renda e oportunidades.

No balanço entre dados e prática, a inteligência artificial se mostra menos como uma ameaça generalizada e mais como um divisor de águas. Ela amplia a distância entre empresas bem estruturadas e despreparadas e redefine o trabalho de forma profunda. O impacto final, porém, não será determinado pela tecnologia em si, mas pelas escolhas estratégicas feitas agora.

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Por João Paulo Ribeiro

Bacharel em Direito pela UNIB; MBAs em Administração e Gestão de Negócios (FIA), Negócios Internacionais (Stanford University) e CEO Program da Fundação Getulio Vargas (FGV); CEO do Grupo Inove; especialista em atendimento, liderança e cultura organizacional centrada no cliente; referência na transformação da experiência de atendimento no Brasil.

Artigo de opinião

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