A importância da Barbie autista para a representatividade das meninas no espectro
Como brinquedos inclusivos podem transformar a autoestima e a percepção social de meninas com Transtorno do Espectro do Autismo
Durante décadas, brinquedos ajudaram a contar às crianças quem elas poderiam ser. Bonecas, em especial, sempre funcionaram como espelhos simbólicos da infância, ainda que para muitas meninas esse reflexo nunca tenha parecido com a própria realidade. É por isso que o recente lançamento da primeira Barbie com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) reacende um debate fundamental sobre o quanto ver a si mesma representada influencia a forma como uma criança constrói sua autoestima e sua relação com o mundo.
Para meninas com TEA, historicamente sub-representadas tanto nos diagnósticos quanto nas narrativas culturais, esse gesto simbólico ganha ainda mais relevância.
Essa ausência de espelhos na infância é algo vivido na prática por muitas mulheres que só receberam o diagnóstico na vida adulta. É o caso de Ana Flávia, 27 anos, que descobriu ser autista tardiamente.
“Recebi o diagnóstico de TEA tardiamente, e acredito que a falta de conhecimento sobre autismo foi um dos principais fatores para isso. Enquanto minha mãe buscava respostas, ninguém pensava que pessoas com TEA poderiam circular por aí, em meio aos neurotípicos”, relata.
Segundo Ana Flávia, comportamentos hoje reconhecidos como características do espectro sempre estiveram presentes, mas foram interpretados de forma equivocada. “Eu, assim como outras meninas autistas, era apenas ‘fresca’, ‘problemática’, ‘esquisita’. As hipersensibilidades, a dificuldade de fazer contato visual, o déficit nas interações sociais… sempre esteve tudo ali. Mas não havia informação suficiente, muito menos representatividade”, afirma.
Para a psicóloga Isabella Roque, especialista em neurodesenvolvimento da Casa Trilá, relatos como esse ajudam a dimensionar a importância de iniciativas simbólicas na infância.
“A infância é um período em que as crianças estão constantemente buscando referências para entender quem são e como pertencem ao mundo. Quando uma menina com autismo não se vê representada em histórias, personagens ou brinquedos, a mensagem implícita pode ser a de que há algo de errado com ela. A representatividade funciona como um fator de validação emocional, não como um rótulo”, explica.
A especialista destaca que meninas com TEA, muitas vezes, aprendem desde cedo a mascarar comportamentos para se adaptar socialmente, o que pode atrasar diagnósticos e gerar sofrimento emocional ao longo da vida.
“Quando falamos de representatividade, estamos falando também de visibilidade, de escuta e de reconhecimento dessas vivências”, afirma Isabella.
Do ponto de vista de quem vive o espectro, a representatividade também está diretamente ligada à possibilidade de um diagnóstico mais precoce e a uma vida com mais autonomia.
“A intervenção precoce é o melhor caminho para uma vida com maior independência. E a melhor forma de construir um mundo menos capacitista é ensinando desde cedo que pessoas podem ser diferentes”, ressalta Ana Flávia.
Isabella reforça que é fundamental compreender que o espectro autista é amplo e diverso, e que nenhuma representação será capaz de abarcar todas as experiências possíveis. Ainda assim, ela destaca o valor simbólico da iniciativa.
“Não se trata de dizer ‘é assim que toda pessoa autista é’, mas de afirmar que pessoas autistas existem, são diversas e merecem ser vistas desde a infância. A representatividade não simplifica o espectro, ela inaugura o diálogo”, complementa.
Ana Flávia também chama atenção para o impacto educativo desses símbolos, tanto para crianças autistas quanto neurotípicas.
“Como profissional da Psicopedagogia, vejo esses brinquedos como um recurso lúdico de ensino sobre diferenças e respeito. Como mulher autista, vejo essa Barbie, sim, como uma forma importante de representatividade”, afirma.
O debate convida pais, cuidadores e educadores a refletirem sobre como pequenas escolhas do cotidiano, como os brinquedos oferecidos às crianças, podem contribuir para uma educação mais empática e inclusiva.
“Quando uma criança neurotípica brinca com uma boneca que traz características diferentes das suas, ela aprende, de forma natural, que a diversidade faz parte da vida”, destaca Isabella.
Dessa forma, para a especialista da Casa Trilá, a Barbie autista se insere em um movimento mais amplo de revisão das narrativas sobre infância, saúde mental e neurodiversidade. Esse movimento lembra que inclusão não começa apenas em políticas públicas ou diagnósticos, mas também nos símbolos, nas histórias e nos espelhos que oferecemos às crianças desde cedo.
Por Isabella Roque
Psicóloga especialista em neurodesenvolvimento da Casa Trilá
Artigo de opinião



