A Felicidade como Prática Inventiva: Repensando o Mito da Plenitude
O filósofo Marcelo Perine propõe uma visão inovadora da felicidade, que valoriza a incompletude e a reinvenção constante diante das pressões da cultura contemporânea.
Por que somos infelizes? Essa foi a pergunta que levou o filósofo Marcelo Perine a escrever *Felicidade Prisioneira: Ensaio de Filosofia Moral*, obra recém-lançada pela PUCPRESS – editora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). O livro se insere no debate contemporâneo sobre ética e moralidade, propondo uma reflexão sofisticada e original sobre o sentido do bem viver, articulando a tradição filosófica às urgências do presente.
“Em poucas palavras, somos infelizes porque podemos fracassar na realização de nossos interesses e na satisfação de nossos legítimos desejos, que consistem, em última análise, em libertar-nos do descontentamento; somos infelizes porque somos e sabemos que somos finitos, contingentes, numa palavra, mortais”. A proposta do autor é compreender a felicidade não como um estado conclusivo, mas como uma prática em constante reinvenção – marcada pela incompletude e pela inventividade. Para desenvolver essa ideia, a obra apresenta-se como um ensaio que reúne dissertações livres e profundas sobre a condição humana, a moralidade e a possibilidade de uma felicidade vivida com consciência.
Perine, professor associado da PUC-SP e referência nacional em Filosofia, revisita criticamente autores clássicos e modernos para construir uma narrativa filosófica que entrelaça razão, liberdade e criação. Com linguagem acessível e rigor filosófico, ele propõe uma “moral viva” que articula a doutrina ética que afirma que a felicidade é o fim supremo da vida humana, alcançado através do exercício da razão e da prática das virtudes – o eudemonismo aristotélico –, a ética do dever kantiana, o imperativo da responsabilidade de Hans Jonas e o “dever de ser feliz” de Eric Weil.
A analogia final com as esculturas inacabadas de Michelangelo é emblemática: a felicidade não se realiza na plenitude, mas na forma que emerge da matéria, no gesto inacabado que revela o sentido. “Contentamento na liberdade” é a expressão que sintetiza a proposta filosófica de Perine, que se contrapõe à concepção utilitarista e performática da felicidade dominante na cultura contemporânea.
Por Marcelo Perine
Professor associado da PUC-SP, mestre e doutor pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, referência nacional em Filosofia Moral, com ampla produção intelectual e atuação acadêmica em graduação e pós-graduação
Artigo de opinião



