Liderança Coerente: O Caminho para Decisões Mais Humanas e Sustentáveis
Como a maturidade e a consciência transformam o papel do líder frente aos desafios atuais
O aumento dos casos de burnout, a perda de confiança nas lideranças e o desengajamento crônico das equipes mostram que o modelo atual de liderança está esgotado.
Durante décadas, a liderança corporativa foi guiada por um conjunto relativamente estável de premissas: eficiência, performance, crescimento e controle. Hoje, esse modelo mostra sinais claros de esgotamento. O aumento dos casos de burnout entre executivos, a perda de confiança nas lideranças e o desengajamento crônico das equipes não são fenômenos isolados, são sintomas de uma crise mais profunda: a desconexão entre decisão, consciência e impacto humano.
Um conceito diferente tem crescido entre CEOs: liderança coerente. Longe de ser uma abordagem “soft”, trata-se de um modelo exigente, que reposiciona o papel do líder diante da complexidade atual. Para Lara Bezerra, executiva com mais de duas décadas de atuação global e ex-CEO da Bayer e da Roche em diferentes continentes, a coerência não é um atributo de estilo, é uma competência decisória.
“Liderar com coerência não significa evitar decisões difíceis. Significa tomar decisões difíceis com maturidade cognitiva, clareza de valores e responsabilidade pelo impacto que elas geram no sistema”, afirma.
Quando o modelo antigo já não responde
Muitos líderes continuam tomando decisões complexas com um nível de consciência que já não corresponde à realidade que enfrentam. Ambientes voláteis, equipes emocionalmente exauridas, pressão social crescente e expectativas éticas mais altas exigem mais do que fórmulas tradicionais de comando e controle.
A incoerência aparece quando há um descompasso entre:
– o discurso institucional
– os valores declarados
– e as decisões efetivamente tomadas
Esse desalinhamento corrói confiança, enfraquece a cultura organizacional e gera custos invisíveis, humanos, financeiros e reputacionais.
Coerência não é gentileza. É maturidade
Um dos equívocos mais comuns sobre o tema é associar liderança coerente à suavização de metas ou à perda de autoridade. Lara rejeita essa leitura.
“Coerência não é ser bonzinho. É ser maduro. É sustentar decisões impopulares sem perder humanidade, nem se esconder atrás do cargo.”
Na prática, isso significa:
– demitir com dignidade e responsabilidade
– cobrar resultados com clareza e respeito
– reconhecer limites humanos sem abrir mão da performance
– alinhar comportamento, linguagem e ação
Para CEOs, esse tipo de liderança exige um trabalho interno profundo. Não se trata apenas de estratégia, mas de autoconsciência, de capacidade de lidar com ambiguidade e de compreender os próprios gatilhos emocionais na tomada de decisão.
Prosperidade sistêmica: o novo critério de sucesso
Outro ponto central da liderança coerente é a noção de prosperidade sistêmica. Lara propõe uma revisão do próprio conceito de sucesso empresarial.
“Não existe prosperidade sustentável quando o lucro é alcançado à custa da saúde emocional das pessoas ou da deterioração da cultura.”
A prosperidade sistêmica considera o impacto das decisões em múltiplas camadas: indivíduos, equipes, organização e sociedade.
Esse olhar ampliado tem levado CEOs a revisarem políticas internas, modelos de gestão de pessoas e até estratégias de crescimento. Em vez de perguntar apenas ‘isso dá resultado?’, líderes coerentes passam a perguntar ‘que tipo de sistema essa decisão fortalece?’.
Consciência elevada, decisões melhores
Existe uma relação direta entre nível de consciência e qualidade das decisões. Quanto maior a consciência — sobre si, sobre o outro e sobre o contexto — maior a maturidade cognitiva do líder para lidar com situações complexas sem recorrer a respostas automáticas ou defensivas.
Essa abordagem dialoga com um movimento crescente no alto escalão das empresas: o reconhecimento de que decisões puramente racionais, desconectadas do fator humano, já não são suficientes.
O líder como formador de seres humanos
Talvez a afirmação mais disruptiva seja esta:
“Um líder tem a obrigação de formar bons seres humanos.”
Isso não significa assumir o papel de terapeuta ou educador moral, mas reconhecer que líderes são, na prática, engenheiros da neuroplasticidade e da epigenética de suas organizações. O exercício da liderança molda comportamentos, valores, padrões de decisão e relações humanas, influenciando diretamente a saúde emocional, cognitiva e ética das pessoas. Organizações são espaços contínuos de aprendizagem humana — para o bem ou para o mal — e aquilo que se normaliza na cultura corporativa transborda para as comunidades ao redor, afetando não apenas resultados de curto prazo, mas a qualidade do tecido social que se constrói a partir do trabalho.
Nesse sentido, a liderança coerente não se limita ao resultado trimestral, mas ao legado que se constrói no cotidiano.
Em um cenário global marcado por incerteza, pressão e complexidade, a liderança coerente surge como um novo parâmetro ético e estratégico. Não elimina dilemas, mas oferece um eixo de orientação mais sólido para enfrentá-los.
Para CEOs que começam a rever decisões difíceis sob essa lente, o ganho não está apenas em números, mas na construção de organizações mais íntegras, resilientes, humanas e sistemicamente sustentáveis — financeira, cultural e socialmente.
“O futuro da liderança não será definido por quem decide mais rápido, mas por quem decide melhor, com consciência, coerência e responsabilidade sistêmica.”
Por Lara Bezerra
Executiva com mais de duas décadas de atuação global, ex-CEO da Bayer e da Roche, fundadora da WorkCoherence e especialista em liderança coerente
Artigo de opinião



