Combate à Intolerância Religiosa no Trabalho: Um Desafio para a Saúde Mental e a Inclusão
A discriminação religiosa, especialmente contra religiões de matriz africana, impacta profundamente o ambiente corporativo e a saúde emocional dos profissionais no Brasil
A intolerância religiosa tem avançado globalmente e já afeta mais de dois terços da população mundial. Segundo o Relatório de Liberdade Religiosa no Mundo 2025, da ACN, graves violações foram registradas em 62 países, impactando cerca de 5,4 bilhões de pessoas. Destes, em 24 países as violações foram classificadas como “perseguição” (a pior categoria) e em 38 como “discriminação” (a segunda categoria mais grave). Outros 24 países permanecem sob observação, o que indica que o risco de retrocessos na liberdade religiosa segue elevado para cerca de 750 milhões de pessoas.
No contexto brasileiro, o cenário também é preocupante. Em 2025, foram registradas cerca de 3 mil denúncias e 4 mil violações de cunho religioso ou de crença no canal de denúncias do Ministério dos Direitos Humanos — o Disque 100, segundo dados do Painel do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Um grupo em particular é especialmente afetado: praticantes de religiões de matriz africana, como umbanda e candomblé, são as principais vítimas de discriminação, como mostra o Relatório sobre intolerância religiosa: Brasil, América Latina e Caribe, publicado pela UNESCO.
Em 2024, os dados do Ministério de Direitos Humanos revelavam que a maior parte das vítimas de intolerância religiosa (60% do total) são mulheres. Parte expressiva desses episódios ocorre no ambiente de trabalho, onde a discriminação se manifesta por meio de humilhações, constrangimentos e restrições impostas por colegas ou lideranças.
A psicanalista Ana Tomazelli alerta para o impacto profundo que essa intolerância pode ter na saúde mental dos profissionais. “Os valores religiosos não estão confinados apenas a templos ou locais específicos. Eles também fazem parte da vida cotidiana das pessoas e se manifestam através de roupas, acessórios e comportamentos”, explica. Ela afirma que a falta de entendimento e respeito no ambiente corporativo reflete um cenário maior de preconceito da sociedade. Para muitos trabalhadores, o simples uso de símbolos religiosos ou a adesão a práticas culturais representa um desafio que pode se tornar extenuante e levar a questões sérias de saúde mental.
Religião: qual a relação com saúde mental no trabalho?
A relação entre religião e trabalho vai muito além do que se imagina. Estudos indicam que políticas de diversidade e inclusão que incorporam a dimensão religiosa estão associadas a maior bem-estar, redução de conflitos internos e menor risco jurídico para as empresas.
Ana observa que as práticas religiosas, especialmente de religiões de matriz africana, enfrentam resistência que se manifesta em situações vexatórias e restrições que vão desde o uso de acessórios até a imposição de normas incompatíveis com a diversidade. Ela destaca: “Enquanto a maioria das empresas aceita o uso de terços ou japamalas, guias e outros símbolos das religiões afro-brasileiras são, muitas vezes, vetados e, pior, hostilizados. Isso revela um preconceito estrutural entrelaçado com racismo e xenofobia, que impacta diretamente a saúde mental dos profissionais.”
A falta de inclusão religiosa nas políticas de diversidade é uma lacuna crítica, especialmente no Brasil, onde há uma predominância histórica de uma matriz religiosa cristã. Segundo Tomazelli, esse desequilíbrio afeta diretamente a saúde mental de muitos colaboradores, principalmente os de religiões menos compreendidas. A especialista enfatiza que “a conversa sobre religião no ambiente de trabalho deve ocorrer para que as empresas promovam um ambiente realmente inclusivo”. Religião é algo que se discute, sim, mas do jeito certo.
No último ano, por exemplo, o Tribunal Superior do Trabalho publicou uma reportagem especial sobre “Intolerância religiosa: consequências no trabalho”, destacando que ofensas, chacotas, impedimento de uso de símbolos religiosos e retaliações por práticas de fé configuram discriminação e podem gerar indenizações por dano moral, rescisão indireta e até responsabilização criminal.
Pesquisas internacionais reforçam esse cenário. Nos Estados Unidos, levantamento da Society for Human Resource Management aponta que 52% dos trabalhadores que vivenciaram ou presenciaram episódios de incivilidade relatam impactos diretos no trabalho, com prejuízos estimados em US$ 2,1 bilhões por dia em produtividade. Em escala global, estudo do Pew Research Center indica que mais da metade da população em 24 países considera a discriminação religiosa um problema relevante, evidenciando que o tema também afeta relações profissionais e oportunidades de carreira.
Desafios e caminhos para o respeito à diversidade religiosa
A pressão para que a prática religiosa não interfira no ambiente corporativo, embora válida, deve ser equilibrada com o direito dos colaboradores à expressão religiosa. Estudos da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostram que ambientes de trabalho que não acomodam a diversidade de crenças religiosas costumam apresentar maior rotatividade de colaboradores e níveis elevados de estresse entre seus membros.
Para Ana Tomazelli, é fundamental que o respeito seja bilateral: “O ambiente de trabalho não é lugar para conversão, mas também não deve ser um espaço de restrição à identidade religiosa.” Ela acredita que as empresas precisam rever suas políticas e estabelecer protocolos que permitam uma convivência harmoniosa. Segundo a especialista, “negar o direito a símbolos religiosos sem justificativa racional, contextualizada e uniforme é um ato de discriminação”.
Impacto da intolerância na saúde mental
O desgaste emocional causado pela intolerância religiosa afeta diretamente a saúde mental dos profissionais, impactando nos índices de ansiedade e depressão. Muitos, ao sentirem-se desrespeitados ou incompreendidos, recorrem a tratamentos de saúde mental para lidar com o estresse acumulado. Tomazelli afirma que “a intolerância é um tipo de violência simbólica, e como tal, ela afeta a autoestima e a capacidade de concentração”.
O Brasil, sendo um dos países com uma das legislações mais amplas sobre liberdade religiosa — conforme assegura o Artigo 5º da Constituição Federal —, ainda enfrenta dificuldades para fazer valer essa proteção no dia a dia. A discriminação e a violência decorrentes da intolerância religiosa, especialmente contra religiões afro-brasileiras, precisam ser combatidas de maneira mais incisiva.
“As empresas precisam se perguntar o que perdem ao restringir a expressão religiosa e o quanto podem ganhar ao promover respeito e segurança psicológica. Ambientes seguros tendem a ser mais produtivos — e isso pode representar um aumento de até 7% nos resultados financeiros”, finaliza Ana Tomazelli.
Por Ana Tomazelli
Psicanalista, Presidente do Instituto de Pesquisa & Estudos do Feminino (Ipefem), Co-fundadora do Instituto de Pesquisa & Estudos em Ciência da Religião (Ipecre)
Artigo de opinião



