Quando a inocência vira obrigação

O caso Powell e a inversão silenciosa que ameaça a democracia

Uma frase dita em tom aparentemente moderado revelou um problema profundo do nosso tempo. Ao comentar investigações envolvendo Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, o presidente da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, Mike Johnson, afirmou que “se Powell for inocente, ele poderá provar isso”.

Pode parecer razoável. Não é.

O que está errado nessa lógica?

Democracias modernas se apoiam em um princípio básico: quem acusa é quem deve provar. A presunção de inocência não existe para proteger pessoas poderosas, mas para proteger todos contra abusos.

Quando essa lógica se inverte, a mensagem implícita é perigosa:
👉 a culpa vira ponto de partida;
👉 a inocência, uma obrigação.

Por que isso importa para você?

Porque essa mentalidade não fica restrita a figuras públicas. Quando normalizada, ela escorre para o cotidiano:

  • nas redes sociais, onde acusações viram sentenças;

  • no debate público, onde suspeitas substituem fatos;

  • na vida comum, onde reputações são destruídas sem prova.

A frase “se não deve, não teme” parece moralmente forte, mas é juridicamente frágil. Quem não deve não tem que provar nada.

Powell é só o pano de fundo

O debate não é sobre inocentar ou condenar Jerome Powell. Isso cabe às instâncias adequadas, com investigação, provas e contraditório. O ponto central é outro: aceitar que alguém precise provar que não cometeu algo é abrir mão de uma garantia civilizatória.

Hoje o alvo é o presidente do banco central dos EUA. Amanhã, pode ser qualquer um.

Da investigação ao espetáculo

Quando a acusação vira espetáculo, o processo perde função. A lógica passa a ser emocional, não racional. A narrativa pesa mais do que os fatos. E, nesse ambiente, o direito deixa de ser proteção e vira ferramenta de pressão.

É assim que democracias se desgastam: não por um grande golpe, mas por pequenas distorções repetidas até parecerem normais.

Um alerta necessário

Existe uma frase que resume bem esse risco:

Quem flerta com o autoritarismo raramente imagina que vai morar nele.

Defender o devido processo legal não é defender pessoas — é defender limites. Quando esses limites caem, ninguém escolhe quando será atingido.

Em resumo

  • Presunção de inocência não é detalhe jurídico.

  • Quem acusa deve provar.

  • Normalizar a inversão dessa lógica enfraquece a democracia.

  • O problema não é o nome do investigado, mas o precedente que se cria.

Entender isso é um passo essencial para navegar melhor num mundo cada vez mais barulhento — e cada vez menos cuidadoso com os próprios fundamentos.

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