Saúde móvel: a revolução que coloca o paciente no centro do cuidado clínico
Como a tecnologia móvel está transformando o sistema de saúde brasileiro, reduzindo custos e ampliando o protagonismo do paciente
O avanço do mHealth, que é a prática de usar dispositivos móveis como smartphones, tablets e wearables para apoiar a prevenção, diagnóstico, tratamento e monitoramento de doenças, representa uma mudança estrutural na forma como sociedades modernas entendem o cuidado em saúde. Essa é a transição mais relevante desde a expansão da atenção primária, porque desloca o olhar do sistema para a vida real do paciente. Em vez de centralizar decisões apenas em consultórios e hospitais, a saúde móvel leva monitoramento, prevenção e orientação contínua para o cotidiano das pessoas. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a saúde móvel é hoje a área de maior crescimento dentro do guarda-chuva da eHealth, impulsionada pela adoção global de smartphones, que já ultrapassam 168 milhões de aparelhos ativos no Brasil, de acordo com a Anatel. Essa base tecnológica cria o ambiente necessário para que soluções móveis transformem desfechos clínicos, reduzam custos e ampliem o acesso a cuidados essenciais.
Com isso, o mHealth tem potencial para reorganizar a lógica de cuidado ao permitir a coleta contínua de dados clínicos e a intervenção precoce em cenários críticos. Estudos citados pela Global Observatory for eHealth mostram que ferramentas móveis podem reduzir hospitalizações desnecessárias, evitar erros médicos e qualificar a comunicação entre pacientes e equipes. No campo das doenças crônicas, o impacto é ainda mais evidente. Pacientes hipertensos, diabéticos ou cardíacos podem registrar sinais vitais em tempo real, permitindo ajustes no tratamento antes que a condição se agrave. No Brasil, práticas de monitoramento remoto já estão em uso em plataformas como o SOS Portal, que coleta frequência cardíaca, frequência respiratória e níveis de estresse apenas com a câmera do celular, ampliando acesso diagnóstico de forma ágil e precisa. Essa capacidade de antecipar riscos se traduz em menos internações, menos deslocamentos e maior autonomia no cuidado.
O argumento econômico reforça essa transformação. Dados da Conta-Satélite de Saúde do IBGE mostram que as despesas em saúde alcançaram 9,6% do PIB em 2022, movimentando cerca de R$ 711,4 bilhões, o que torna a eficiência tecnológica indispensável para a sustentabilidade do sistema. Projeções do portal Statista estimam que o mercado brasileiro de Saúde Digital deve atingir receita de 5,65 bilhões de dólares em 2025, impulsionado justamente por soluções capazes de reduzir atendimentos presenciais desnecessários, melhorar a adesão a tratamentos e otimizar rotinas hospitalares. Quando um aplicativo permite acompanhar sinais vitais, orientar curativos, ajustar medicamentos ou evitar internações emergenciais, o sistema economiza recursos e devolve qualidade de vida ao paciente.
Ainda assim, a expansão desse ecossistema enfrenta críticas importantes. A digitalização excessiva distancia médicos e pacientes, pode comprometer a precisão clínica e agrava desigualdades tecnológicas. Essas preocupações merecem atenção, mas não invalidam o avanço. A regulamentação da telemedicina, debatida pelo Conselho Federal de Medicina, busca justamente garantir critérios éticos e segurança de dados, reduzindo riscos. A privacidade é um ponto sensível, mas soluções modernas operam com criptografia e padrões rígidos de proteção. Também é verdade que algumas populações ainda têm dificuldade de acesso, porém pesquisas da Anatel mostram que o celular é o dispositivo digital mais democratizado no país, inclusive entre classes C e D. O desafio não é evitar o mHealth, mas garantir que ele seja seguro, regulado e acessível.
O maior risco, na verdade, é o da lentidão regulatória. Como alertam pesquisadores do setor, a velocidade da inovação é maior do que a capacidade de aprovação de novos dispositivos no Brasil. Projetos que monitoram glicose por sensores implantáveis, rastream os estoques hospitalares ou avaliam sinais vitais por wearables já apresentam resultados internacionais robustos, mas enfrentam barreiras burocráticas para operar em larga escala aqui. Se o país não reduzir esse descompasso, corre o risco de ampliar o custo da saúde e atrasar avanços que poderiam salvar vidas. A história recente da digitalização mostra que demora para adotar novas tecnologias significa perder competitividade e capacidade de resposta.
Portanto, o futuro do mHealth caminha para modelos preditivos com inteligência artificial, integração de dispositivos IoT e monitoramento contínuo. Segundo a LAVCA, o setor de healthtech foi um dos que mais cresceu na América Latina, com alta de 250 por cento em 2017, tendência intensificada no pós-pandemia. Com tecnologias mais precisas e dados em tempo real, o cuidado torna-se centrado no paciente e mais preventivo. Nesse cenário, a saúde móvel não é apenas inovação, mas uma mudança estrutural que democratiza o acesso, reduz custos e amplia o protagonismo do paciente. Com regulação adequada e segurança de dados, o Brasil pode transformar esse avanço em ganhos concretos para o sistema de saúde.
Por Rafael Figueroa
empreendedor serial, especialista em machine learning, CEO da Portal Telemedicina
Artigo de opinião



