Por que o pensamento positivo não funciona para adultos autistas e com TDAH

Neurologista destaca a importância da neurocompatibilidade e estratégias biológicas para preservar a saúde mental de quem pensa diferente

O Janeiro Branco traz à tona a discussão sobre saúde mental, mas para uma parcela crescente da população adulta, os conselhos tradicionais podem soar quase como uma ofensa. Estamos falando dos adultos diagnosticados tardiamente com TEA (autismo) e TDAH. Para eles, tentar “apenas relaxar” ou “ter força de vontade” não é só ineficaz — é um gatilho para o adoecimento.

Quem faz o alerta é o Dr. Matheus Trilico, neurologista referência no atendimento desses adultos. No consultório, ele vê um padrão se repetir: pessoas brilhantes que chegam colapsadas.

“Não é falta de esforço. É exaustão biológica”, define o médico. “Imagine um sistema operacional tentando rodar um software pesado numa máquina que não foi projetada para aquilo. O processador esquenta. No ser humano, isso vira ansiedade crônica, depressão e o que chamamos de burnout neurodivergente.”

Para o especialista, cuidar da mente desses adultos exige sair do óbvio e entender a biologia por trás do comportamento.

A rotina como liberdade, não prisão
Esqueça a ideia de rotina militar. Para o Dr. Matheus, a rotina é uma questão de economia de energia. O cérebro TDAH, por exemplo, tem uma química diferente na gestão da dopamina. Cada pequena decisão — “o que vou vestir?”, “o que vou comer?” — custa caro para esse cérebro.

“Quando o paciente automatiza o básico, ele para de gastar essa ‘bateria’ com bobagem e sobra energia para o que importa. A rotina não é para prender, é para libertar a mente da fadiga de decisão”, explica.

“Se eu não vejo, não existe”
Outro ponto crucial é o ambiente. Dr. Trilico destaca o conceito de permanência do objeto. Para muitos neurodivergentes, o que está dentro de uma gaveta deixa de existir na memória imediata.

“Aí a pessoa se culpa por ser desorganizada, mas o problema é que a casa dela foi montada para um cérebro típico”, diz o neurologista. A solução? “Organização visual. Caixas transparentes, listas na parede. A casa tem que ser funcional para a sua neurobiologia, não para uma capa de revista.”

Você não está ansioso, está desidratado
Um aspecto que o Dr. Matheus bate na tecla é a interocepção — a capacidade de sentir o próprio corpo. Muitos autistas e TDAHs têm dificuldade em perceber sinais básicos como fome, sede ou vontade de ir ao banheiro até que a necessidade seja urgente.

“Muitas vezes, o paciente chega achando que está tendo uma crise de pânico, mas o corpo dele só está gritando por água ou descanso”, alerta. A estratégia de saúde mental aqui é prática: alarmes para beber água e higiene do sono rigorosa. “Não dá para ter saúde mental num corpo que está em modo de sobrevivência fisiológica.”

O custo de fingir ser “normal”
Por fim, o médico toca na ferida do masking — o esforço constante para camuflar os traços da neurodivergência socialmente.

“Neste Janeiro Branco, meu recado é: pare de tentar consertar quem você é. O custo energético de fingir normalidade é altíssimo e a conta chega na forma de depressão”, finaliza Dr. Trilico. “Saúde mental para o neurodivergente é autoconhecimento. É ler o manual do próprio cérebro e respeitar seus limites, sem culpa.”

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Por Dr. Matheus Luis Castelan Trilico

Médico pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA); Neurologista com residência médica pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR); Mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde pelo HC-UFPR; Pós-graduação em Transtorno do Espectro Autista

Artigo de opinião

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