A importância da proteção de dados na alfabetização infantil

Por que ensinar noções de privacidade e segurança digital desde os primeiros anos escolares é fundamental para formar cidadãos conscientes na era digital

O acesso precoce das crianças à internet ampliou a exposição a golpes, coleta indevida de dados e abordagens inadequadas, sem que a educação básica acompanhe esse avanço de forma preventiva. Especialistas defendem que noções de privacidade e segurança digital passem a integrar a alfabetização infantil, ao lado de leitura e matemática.

O acesso precoce à internet por crianças brasileiras tem ampliado a exposição a golpes, coleta indevida de dados e abordagens inadequadas, sem que a escola acompanhe esse movimento com educação preventiva. Especialistas defendem que noções de proteção de dados e uso responsável da tecnologia sejam ensinadas desde os primeiros anos escolares, de forma estruturada e contínua. A avaliação é que, assim como leitura e matemática, a educação digital deixou de ser complementar e passou a ser uma habilidade básica para a formação cidadã. A ausência desse conteúdo faz com que crianças aprendam a usar dispositivos, mas não a reconhecer riscos.

A discussão ganha peso num país que já opera sob a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e, ao mesmo tempo, convive com desigualdades de infraestrutura e formação docente para a educação digital. Nos últimos anos, o Ministério da Educação e o Conselho Nacional de Educação publicaram normas e guias para integrar computação e educação digital ao currículo, mas a implementação ainda é desigual entre as redes.

Para Daniel Meirelles, especialista em cibersegurança e coautor do livro infantil “O Cibernauta em a Super Senha Secreta”, a escola precisa tratar a proteção de dados como conteúdo básico, com linguagem compatível com a infância. “Hoje, tudo passa pelo digital. Entender o básico sobre proteção de dados e boas práticas online é uma questão de cidadania”, afirma. Meirelles é CISO da Austral Seguradora e Resseguradora e atua há mais de 20 anos com segurança da informação.

No exterior, a alfabetização digital infantil já é tratada como política educacional estruturada. Países como Inglaterra, Finlândia e Estados Unidos introduzem desde os primeiros anos conteúdos sobre uso seguro da tecnologia, proteção de dados, senso crítico e comportamento online, integrados a diferentes disciplinas do currículo.

No Brasil, em muitas redes, o tema surge apenas após incidentes, e desafios como infraestrutura, formação de professores e falta de material didático adequado dificultam a consolidação do ensino preventivo. Iniciativas locais, como a regulamentação adotada pela cidade de São Paulo, avançam no sentido de dar previsibilidade, mas ainda enfrentam obstáculos para se traduzir em prática cotidiana nas escolas.

Na ausência de uma abordagem sistemática nas redes de ensino, projetos independentes passam então a ocupar esse espaço. Criado por Daniel Meirelles e pelo economista Eduardo Argollo, o projeto O Cibernauta aposta em histórias infantis para traduzir conceitos técnicos como senha, privacidade e cuidado com informações pessoais para crianças de 6 a 10 anos. “Queremos que as famílias aprendam juntas, de forma leve, sobre como se proteger. A ideia é transformar o aprendizado técnico em algo acessível”, afirma Argollo, que tem mestrado em administração e experiência em grandes empresas dos setores de saúde e seguros.

A lógica do livro, segundo os autores, é funcionar como apoio para educadores e responsáveis, abrindo conversa em casa e na escola com exemplos do cotidiano infantil, sem depender de jargões. “Quando a criança entende por que uma senha precisa ser protegida ou por que não deve responder a desconhecidos, ela passa a agir com mais consciência, não por medo, mas por entendimento”, diz Argollo.

O debate sobre currículo, portanto, não é apenas pedagógico. Ele passa por uma mudança de contexto: crimes digitais se sofisticaram e expandiram o alvo, inclusive para públicos jovens e hiperconectados. A Serasa Experian aponta crescimento superior a 50% nos últimos anos nas tentativas de fraude contra pessoas de até 25 anos na comparação anual, sinal de que o risco deixou de ser exceção e passou a fazer parte do ambiente em que crianças e adolescentes crescem.

A proposta defendida por especialistas é tratar o tema como alfabetização para a vida prática: ensinar cedo o que pode ser compartilhado, o que deve ficar em sigilo, como pedir ajuda e por que privacidade é proteção, não segredo. A aposta é que, com orientação sistemática, a criança ganhe repertório para reconhecer riscos antes que eles virem dano, do mesmo modo que aprende a atravessar a rua ou a lidar com dinheiro.

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Por Carolina Lara

Artigo de opinião

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