Quando a internet vende cura, mérito e culpa

Exercício faz bem. Ciência também. O problema começa quando a meritocracia vira milagre.

“Vi um cara na internet que tinha Parkinson, foi para a academia e hoje não treme mais.”
A frase parece inspiradora. Mas carrega um problema grave: transforma exceção em regra e vende a ilusão de que saúde responde apenas à força de vontade.

Esse tipo de conteúdo viraliza porque conforta quem assiste — mas pode machucar profundamente quem vive a realidade da doença.


Exercício ajuda. Não cura.

A ciência é clara: atividade física pode melhorar força, equilíbrio, mobilidade e qualidade de vida em pessoas com Parkinson e outras doenças neurológicas.
Isso é avanço. Isso é cuidado.
Mas não é cura.

Doenças neurológicas não se comportam de forma linear. Cada corpo responde de um jeito, dependendo de fatores como:

  • genética

  • estágio da doença

  • acesso a tratamento

  • resposta individual a medicamentos e terapias

Ignorar isso é trocar informação por narrativa.


O “amistoso” da meritocracia digital

A internet adora histórias em que tudo depende do indivíduo:

  • treinou, venceu

  • acreditou, curou

  • persistiu, superou

Mas a vida real não é um amistoso, onde todos começam no mesmo campo, com as mesmas condições físicas, emocionais e médicas.

Esse discurso cria uma armadilha perigosa:

  • quem melhora “venceu”

  • quem não melhora “falhou”

Em doenças crônicas ou degenerativas, isso não motiva — culpabiliza.


Quando mérito vira culpa

Ao simplificar demais, a meritocracia online transforma sofrimento em responsabilidade individual.
Se você não melhorou, a mensagem implícita é cruel: você não se esforçou o suficiente.

Isso ignora limitações reais e cria um peso emocional extra para quem já está lidando com dor, medo e incerteza.


E quando a realidade não cabe no vídeo

Histórias de superação total performam melhor do que a verdade.
Elas rendem likes, comentários e compartilhamentos.

Mas quase nunca mostram:

  • recaídas

  • dias ruins

  • limitações permanentes

  • tratamentos contínuos

A estética da superação vende.
A ciência, nem sempre.


O exemplo de Michael J. Fox

Mesmo com acesso aos melhores médicos, terapias e tecnologias, ele nunca escondeu que o Parkinson segue seu curso.

Não por falta de esforço.
Não por falta de disciplina.
Mas porque biologia não obedece slogans motivacionais.

E esse é um lembrete importante: há limites que não são falta de mérito — são realidade.


O problema não é incentivar. É prometer o que não existe.

Incentivar hábitos saudáveis é fundamental.
Trocar tratamento médico por frases de impacto, não.

Quando a internet promete cura onde não há, ela cria falsas expectativas, frustrações profundas e desconfiança na ciência.

Esperança precisa andar junto com responsabilidade.


Conclusão

A vida não é um reality show de superação.
E saúde não responde a discursos simplistas.

Exercício é apoio.
Ciência é base.
Empatia não compara.

E, às vezes, cuidar também é dizer:

nem tudo depende de você — e isso não te torna fraco.

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