O desafio da interrupção das canetas emagrecedoras: por que o peso pode voltar tão rápido?
Estudo revela que a suspensão de medicamentos como Wegovy e Mounjaro pode levar a um reganho de peso acelerado, reforçando a obesidade como doença crônica que exige acompanhamento contínuo.
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O uso de medicamentos injetáveis para o tratamento da obesidade, como Wegovy e Mounjaro, revolucionou a perda de peso nos últimos anos. Estudos mostram reduções expressivas, entre 9% e 25% do peso corporal, a depender da molécula e do protocolo adotado. No entanto, uma nova análise publicada no British Medical Journal reacende um debate central na endocrinologia: o que acontece quando o tratamento é interrompido?
A pesquisa, que analisou 37 estudos com mais de 9 mil pacientes, indica que pessoas que suspendem o uso das chamadas “canetas emagrecedoras” recuperam peso até quatro vezes mais rápido do que aquelas que abandonam dietas convencionais e programas de exercício físico. Em média, a recuperação foi de 0,8 kg por mês após a interrupção da medicação, o que leva muitos pacientes a retornarem ao peso anterior em cerca de um ano e meio.
O dado contrasta com o observado em estratégias baseadas apenas em mudança de hábitos, nas quais a perda inicial costuma ser menor, mas a recuperação acontece de forma mais lenta, cerca de 0,1 kg por mês. Contudo, são necessárias mais pesquisas. “O que precisamos analisar sobre este estudo é que houve um maior ganho de peso no grupo que usou a medicação quando foi comparado com o que fez só dieta e atividade física, mas vale lembrar que a perda de peso desse grupo também foi muito menor”, explica Alessandra Rascovski, endocrinologista e autora do livro AtmaSoma – O equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor.
Especialistas apontam que o fenômeno não pode ser interpretado como “falta de força de vontade”. Os análogos do GLP-1 atuam diretamente em mecanismos hormonais ligados à saciedade e ao controle do apetite.
“Quando há a interrupção da medicação ou depois de se perder muitos quilos, principalmente, o paciente volta a ter uma diminuição da queima calórica e uma mudança do controle de fome e saciedade, que vai levar a um ganho de peso posterior. Então, esse é um fator esperado”, acrescenta.
Quando a medicação é retirada de forma abrupta, o apetite volta a se intensificar, aumentando o risco de compulsão alimentar e ganho rápido de peso, especialmente quando o tratamento foi conduzido sem mudanças alimentares e comportamentais estruturadas.
Esse cenário reforça o entendimento de que a obesidade não é uma condição transitória. “Assim como a diabetes, a condição é uma doença crônica recidivante, que muitas vezes não pode ser tratada somente com mudança de hábitos”, explica a endocrinologista.
Tratamento contínuo ou interrupção planejada?
No Reino Unido, onde o estudo foi conduzido, parte dos especialistas defende que o tratamento com GLP-1 deve ser considerado de longo prazo, justamente pelo risco de recaída. Já no Brasil, embora Wegovy e Mounjaro sejam aprovados pela Anvisa para o tratamento da obesidade, o alto custo mensal faz com que muitos pacientes considerem a interrupção após o emagrecimento inicial. A pergunta, portanto, deixa de ser se é possível parar, e passa a ser como parar com segurança.
Segundo Rascovski, o fortalecimento dessas terapias ampliou a discussão sobre indicação, acompanhamento e responsabilidade no uso. “As principais causas de morte em todo o planeta são doenças em que o sobrepeso tem muita participação. Por isso, a importância de entender e combater essa condição, que não é apenas individual”, afirma Rascovski.
Na avaliação de especialistas, a interrupção do uso das canetas emagrecedoras costuma apresentar melhores resultados quando é acompanhada por uma fase de manutenção estruturada. A estratégia envolve, em geral, ajustes graduais da medicação, seguimento clínico, mudanças alimentares, prática regular de atividade física e abordagens comportamentais que favoreçam a manutenção do peso a longo prazo.
A endocrinologista reforça que ainda há lacunas importantes no conhecimento científico sobre o tema. “Outros fatores que não foram realizados nesses estudos é o acompanhamento do paciente perdendo peso com mais musculação, dieta protéica ou de algum outro tipo, para pensar se isso seria diferente para manter o peso pós-retirada do medicamento”, diz.
“O uso sem indicação, por outro lado, acende alertas. A automedicação e o consumo motivado por fins estéticos podem trazer riscos metabólicos e efeitos adversos”, ressalta Rascovski. “A utilização prolongada sem controle adequado pode alterar funções metabólicas, resultando em complicações, além de causar possíveis efeitos colaterais.”
A endocrinologista reforça que o tratamento exige individualização e supervisão constante. “A utilização prolongada sem controle adequado pode alterar funções metabólicas, resultando em complicações, além de causar possíveis efeitos colaterais. O tratamento deve ser acompanhado por profissionais de saúde para garantir que o paciente faça um uso adequado da medicação, ajustes das demais medicações que o paciente esteja utilizando, além da importância de monitorar adequadamente os efeitos colaterais e realizar os ajustes de doses de medicação de acordo com cada perfil de paciente.”
O olhar para o longo prazo
As diretrizes mais recentes da Organização Mundial da Saúde recomendam o uso de terapias com GLP-1 em adultos para o tratamento de longo prazo da obesidade, embora reconheçam a necessidade de mais dados sobre segurança e efetividade em períodos prolongados. O alerta é claro: a medicação, isoladamente, não resolve a epidemia global de obesidade. Ela deve ser parte de uma estratégia mais ampla, que leve em conta o ambiente, o excesso de ultraprocessados, o sedentarismo e os impactos hormonais e emocionais da doença.
Os números ajudam a dimensionar o problema. Segundo o World Obesity Atlas 2025, cerca de 31% dos adultos brasileiros vivem atualmente com obesidade, e 68% apresentam excesso de peso. Se as tendências forem mantidas, quase metade da população adulta do país poderá conviver com obesidade até 2030, um cenário que auxilia a explicar por que especialistas tratam a condição como uma doença crônica, progressiva e de alta complexidade clínica.
Para a endocrinologista, o ponto central está no acompanhamento após o fim da medicação. “A grande verdade é entender que reganho de peso é a regra, não a exceção, e que é sobre isso que deveríamos trabalhar no pós-uso da medicação, como vai ser seguido individualmente para cada paciente, para que ele continue tendo o resultado”, conclui.
Por Alessandra Rascovski
Endocrinologista, autora do livro "AtmaSoma – O equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor", diretora médica da clínica Atma Soma
Artigo de opinião



