O desafio contínuo do câncer infantil no início do ano

Como a rotina intensa e a vulnerabilidade das famílias impactam a adesão ao tratamento e a saúde mental das crianças com câncer

Janeiro costuma carregar a ideia de recomeço. É quando planos são refeitos, metas ganham novo fôlego e a esperança de dias melhores se renova. Para milhares de famílias brasileiras que convivem com o câncer infantil, no entanto, o início de 2026 chega sem pausa, sem trégua e sem espaço para adiamentos. O tratamento segue. A rotina permanece intensa. A luta continua diária.

Todos os anos, cerca de 8 mil crianças e adolescentes recebem o diagnóstico de câncer no Brasil. Para essas famílias, a virada do calendário não significa apenas esperança, mas uma reorganização profunda da vida. Consultas, sessões de quimioterapia, exames, internações e deslocamentos longos fazem parte do cotidiano logo nos primeiros dias do ano. Em muitos casos, o tratamento é retomado imediatamente após as festas, em um momento de fragilidade física e emocional.

Esse processo não impacta apenas a saúde da criança. Ele atravessa toda a estrutura familiar. Dados dos programas apoiados pelo Instituto Ronald McDonald mostram que a maioria das famílias atendidas vive em situação de vulnerabilidade social. Grande parte sobrevive com renda de até um salário-mínimo e enfrenta dificuldades básicas, como alimentação adequada, transporte até os hospitais e um local seguro para permanecer durante o tratamento.

O início do ano também costuma intensificar desafios financeiros. Muitos responsáveis precisam se afastar do trabalho ou abandonar o emprego para acompanhar os filhos. A renda diminui, enquanto os custos aumentam. Para essas famílias, manter o tratamento depende diretamente de uma rede de apoio estruturada e contínua.

A interrupção ou o abandono do tratamento ainda é uma realidade no país, especialmente em regiões onde o acesso aos centros especializados é limitado. Garantir que a criança consiga seguir com o cuidado adequado exige mais do que atendimento médico. Exige acolhimento, suporte emocional, alimentação, orientação social e condições mínimas de dignidade para toda a família.

Ao longo de mais de 26 anos de atuação, o Instituto Ronald McDonald tem acompanhado de perto essa realidade. Desde a sua criação, os projetos apoiados pela instituição já beneficiaram 3,3 milhões de crianças e jovens diretamente e impactaram 13 milhões indiretamente em todo o Brasil, oferecendo suporte integral às famílias durante o tratamento oncológico. Esse apoio contribui diretamente para a adesão ao tratamento e para a redução do abandono, um fator decisivo nas chances de cura.

Janeiro também chama atenção para a saúde mental. O início ou a retomada do tratamento costuma vir acompanhado de ansiedade, medo e exaustão emocional. Cuidar da mente da criança e de quem cuida dela é parte essencial do processo terapêutico. Famílias emocionalmente amparadas conseguem enfrentar melhor os desafios, tomar decisões com mais clareza e seguir adiante, mesmo quando o caminho é longo.

Nas unidades dos programas Casa Ronald McDonald e Espaço da Família Ronald McDonald, vemos diariamente como o acolhimento transforma trajetórias. Alimentação garantida, um local para descansar, apoio psicológico e orientação fazem diferença concreta na vida dessas famílias. Não se trata apenas de conforto. Trata-se de criar condições reais para que o tratamento continue.

Enquanto muitos iniciam 2026 pensando em novos projetos e planos pessoais, milhares de famílias começam o ano pensando em como seguir com o tratamento dos filhos. Nosso compromisso é garantir que nenhuma criança tenha sua chance de cura comprometida por falta de apoio. Porque, para quem enfrenta o câncer infantil, o ano pode até mudar, mas o cuidado precisa ser contínuo.

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Por Bianca Provedel

jornalista, psicóloga, mãe, CEO do Instituto Ronald McDonald, atua há mais de 20 anos no terceiro setor

Artigo de opinião

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