Protegendo Crianças nas Férias: A Importância do Cuidado Estratégico e do Vínculo

Como garantir segurança e bem-estar infantil durante o período de férias, mesmo quando o cuidado é delegado a terceiros

As férias de verão representam, para muitas crianças, um período de maior liberdade, novas experiências e mudanças de rotina. Colônias de férias, viagens, pernoites na casa de parentes ou amigos e atividades fora do ambiente doméstico passam a fazer parte do cotidiano. Esse deslocamento, no entanto, também exige que pais e responsáveis adotem uma postura de cuidado estratégico. Especialistas alertam que o afastamento da rotina e a delegação de responsabilidades a terceiros podem mascarar riscos importantes, inclusive situações de abuso.

Segundo a educadora sexual, psicanalista e sexóloga Marcella Jardim, o principal risco não está em delegar o cuidado, mas em fazê-lo sem diálogo, supervisão e vínculo. “Quando os pais não acompanham de perto, a criança pode se tornar mais vulnerável a violências físicas, emocionais ou sexuais, além de não se sentir segura para relatar algo que a incomodou”, explica. Para ela, mais do que vigilância constante, o que protege é o vínculo construído com a criança. “Quando ela sabe que pode falar sem medo, ela se protege melhor.”

Mesmo ambientes tradicionalmente vistos como seguros, como casas de parentes, amigos próximos ou colônias organizadas, exigem atenção ativa. Marcella destaca que existe uma crença comum de que o perigo vem apenas de pessoas desconhecidas, o que não condiz com a realidade. “Grande parte das situações de risco acontece justamente com pessoas próximas, que conhecem a criança, a rotina da família e seus momentos de vulnerabilidade”, afirma. Isso não significa viver em estado permanente de desconfiança, mas compreender que proximidade não é sinônimo de segurança absoluta.

Antes de inscrever os filhos em colônias de férias, os pais devem olhar além da programação recreativa. É fundamental verificar quem são os responsáveis diretos pelas crianças, se há profissionais capacitados, como ocorre a supervisão em momentos mais sensíveis, como banheiro, troca de roupa e descanso, e se existem regras claras de cuidado e canais de comunicação com as famílias. “Também é importante observar se a criança se sente segura naquele ambiente”, orienta a especialista. Paralelamente, o diálogo com o filho deve ser claro e acessível, reforçando que qualquer situação desconfortável pode e deve ser comunicada, sem medo de punição.

A formação dos monitores é outro ponto essencial. De acordo com Marcella, o treinamento precisa ir além das atividades lúdicas. “Eles devem ter noções claras sobre limites físicos e emocionais, reconhecer sinais de desconforto, saber como agir diante de situações suspeitas e entender que toques, brincadeiras ou piadas nunca podem constranger a criança”, afirma. Além disso, os profissionais precisam estar preparados para escutar com respeito e encaminhar relatos com seriedade. “Prevenção não é vigilância excessiva, é preparo e responsabilidade”.

A orientação sobre limites do corpo deve acontecer antes das viagens ou do período longe dos pais, sempre de forma tranquila e adequada à idade da criança. A especialista ressalta que o objetivo não é gerar medo, mas fortalecer a segurança. “É importante explicar que o corpo merece respeito, que ninguém pode tocar sem consentimento e que a criança pode dizer ‘não’ sempre que algo a deixar desconfortável”, diz. Reforçar que ela não será punida por contar algo que cause confusão ou vergonha é parte central dessa conversa.

Como apoio, algumas famílias adotam códigos de segurança para que a criança possa pedir ajuda à distância. Marcella pondera que essa ferramenta só funciona quando existe confiança real. “Sem vínculo, nenhum código funciona. Com comunicação e escuta, a criança pede ajuda, mesmo de longe”, afirma. Para ela, a base da proteção está em garantir que a criança será levada a sério e acolhida quando falar.

Caso surja uma suspeita ou revelação de abuso durante as férias, a reação dos adultos é decisiva. A orientação é manter a calma, escutar sem interromper ou duvidar e deixar claro que a criança não fez nada de errado.

Por fim, a especialista destaca o papel da educação sexual como ferramenta de empoderamento infantil. Quando trabalhada de forma adequada à idade, ela ensina consciência corporal, limites, identificação de situações desconfortáveis e fortalece a comunicação. “Educação sexual não é antecipar conteúdos, é preparar emocionalmente. Uma criança informada, escutada e respeitada tem mais recursos para se cuidar, mesmo longe dos pais”, conclui.

As férias podem, e devem, ser um tempo de descobertas e memórias positivas. Para que isso aconteça de forma segura, informação, diálogo e presença ativa seguem sendo os principais aliados das famílias.

M

Por Marcella Jardim

educadora sexual, psicanalista, sexóloga, educadora física e professora de Filosofia

Artigo de opinião

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