Férias e Segurança Infantil: Como a Autonomia Guiada Pode Reduzir Acidentes

Liberdade com responsabilidade em ambientes preparados é a chave para proteger crianças e estimular seu desenvolvimento durante as férias escolares

Durante as férias escolares, os acidentes com crianças aumentam de forma significativa. Dados da ONG Criança Segura indicam que 38% das mortes por acidentes acontecem nesse período, impulsionadas pela mudança de rotina e maior tempo em casa. Os acidentes mais frequentes são trânsito, afogamento e queimadura, mas estudos mostram que 90% deles podem ser evitados com medidas simples de prevenção.

O período de férias, marcado por uma rotina flexível, maior permanência em casa e supervisão intermitente, reacende um debate essencial: como garantir segurança sem sufocar a autonomia infantil. Entre as abordagens que ganham destaque nesse cenário, a Pikler surge como referência por propor ambientes preparados, liberdade de movimento e interações mais conscientes entre adultos e crianças.

Especialistas da Sociedade Brasileira de Pediatria alertam que queimaduras, quedas e ingestão acidental de objetos são os incidentes mais frequentes nesse período. Grande parte ocorre porque, com a quebra da rotina, adultos dividem atenção entre trabalho remoto, tarefas domésticas e cuidados com os filhos. Esse contexto amplia a importância de um ambiente seguro e da autonomia guiada.

A abordagem Pikler, criada pela pediatra húngara Emmi Pikler, defende que a criança se desenvolve melhor quando pode se movimentar livremente em um espaço preparado e sem estímulos excessivos. Para a especialista em primeira infância Roberta Scalzaretto, o modelo traz benefícios concretos principalmente durante as férias.

“Quando o adulto organiza um espaço seguro e permite que a criança explore com liberdade, reduz o risco de acidentes e favorece o desenvolvimento motor, cognitivo e emocional. Nas férias, essa abordagem se torna ainda mais valiosa, porque a criança passa muito mais tempo em casa”, explica.

O brincar livre é um dos fatores mais importantes para o desenvolvimento infantil, impactando habilidades de resolução de problemas e regulação emocional. Contudo, muitas famílias ainda organizam as férias com atividades dirigidas o dia inteiro, o que vai na direção oposta do que pesquisas recentes indicam como ideal. O período é propício para que pais e cuidadores observem as crianças de forma mais atenta e intencional.

“A abordagem Pikler não fala sobre deixar a criança ‘solta’, e sim sobre criar um ambiente que convide ao movimento seguro. Nas férias, o adulto consegue observar mais, intervir menos e construir um vínculo mais afetivo durante os cuidados cotidianos”, afirma.

Somente em 2022, mais de 8,6 mil crianças e adolescentes morreram em decorrência de acidentes domésticos no Brasil, segundo o Ministério da Saúde. Grande parte dessas ocorrências poderia ter sido evitada com adaptações simples no ambiente. Entre as recomendações alinhadas à abordagem Pikler estão: pisos firmes e antiderrapantes; ausência de móveis instáveis; objetos ao alcance da criança para estimular exploração segura; brinquedos simples, como potes, colheres, tecidos e caixas; e áreas delimitadas onde o adulto possa observar sem interferência constante.

Essas práticas, além de prevenirem acidentes, ampliam a capacidade da criança de criar soluções próprias, fortalecendo autonomia e confiança.

Com mais tempo juntos, as férias favorecem um dos pilares centrais da abordagem: a qualidade da relação entre adulto e criança. Isso inclui narrar ações, esperar os tempos da criança e oferecer cuidados sem pressa, desde uma troca de roupa até o momento de comer.

O vínculo construído nesses momentos se torna um dos maiores ganhos do período. “As férias permitem que o adulto reduza o ritmo e se conecte mais profundamente com a criança. Quando isso acontece, ela se sente segura para explorar e aprender. É uma combinação poderosa entre autonomia e afeto”, conclui.

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Por Roberta Scalzaretto

Especialista em Educação Infantil com atuação internacional; graduada em Magistério, Pedagogia e Psicopedagogia; experiência no Brasil e nos Estados Unidos; formação avançada na abordagem Pikler; idealizadora do projeto Brinquedoteca no Colégio Porto Seguro Panamby; referência em práticas pedagógicas para a primeira infância

Artigo de opinião

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