Exaustão emocional e cultura da produtividade: desafios para a saúde mental no Brasil

Como a comparação constante e a pressão por resultados ampliam o adoecimento mental e por que a prevenção precisa ser prática e efetiva

O debate sobre saúde mental nunca esteve tão presente no Brasil. Ainda assim, os índices de ansiedade, estresse crônico e Burnout seguem em crescimento. Esse aparente paradoxo se explica menos por um “aumento repentino” de adoecimento e mais por um reconhecimento tardio de algo que sempre existiu, mas foi historicamente minimizado.

Ao longo da história, o sofrimento psicológico sempre esteve presente. A diferença é que hoje há mais visibilidade. Antes, muitos sintomas eram tratados como “frescura” ou falta do que fazer. Agora, as pessoas conseguem identificar sinais e buscar ajuda.

Um dos conceitos mais banalizados nos últimos anos é o da exaustão emocional. O cansaço comum costuma ser resolvido com pausas e descanso, enquanto o esgotamento mental persiste mesmo após noites bem dormidas. Na exaustão, o repouso não dá conta. Surgem sinais como fadiga mental, irritabilidade, ansiedade e dificuldade de concentração, sintomas que muitas pessoas insistem em ignorar.

Entre jovens de 18 a 30 anos, esse quadro é intensificado por um sentimento constante de atraso em relação à vida, à carreira e às conquistas. As redes sociais exercem papel central nesse processo. A pergunta que precisa ser feita é: atrasado para quem? A comparação constante gera cobranças exageradas, culpa, medo e ansiedade. A grama do vizinho pode ser linda, mas também pode ser de plástico. Vale a pena se comparar com algo artificial?

No ambiente corporativo, programas de bem-estar ainda falham por não se traduzirem em cultura real. Criar ações por obrigação não transforma nada. É preciso vestir a camisa do cuidado, acreditar no impacto desses programas e ter lideranças comprometidas. Quando a empresa cuida realmente do colaborador, o retorno aparece e todos ganham. Para isso, é necessária uma mobilização que envolva treinamentos, campanhas internas, eventos e comitês permanentes, e não apenas iniciativas pontuais.

Sobre grupos mais vulneráveis ao adoecimento mental, não há uma resposta única. Pessoas expostas à pobreza, violência, discriminação, estresse e traumas têm maior risco, mas tudo precisa ser analisado caso a caso. Genética, história de vida, rede de apoio e políticas públicas fazem toda a diferença. Ter predisposição não significa, necessariamente, adoecer.

A cultura da hiperconectividade e da produtividade incessante surge como um dos principais gatilhos contemporâneos de ansiedade e Burnout, especialmente entre as gerações mais jovens. Vivemos em estado de alerta constante. O trabalho ultrapassou o horário comercial, os prazos estão mais curtos e a pressão por produzir nunca termina. Isso gera estafa, medo e sofrimento. Para se proteger, é essencial estabelecer limites claros, criar momentos de desconexão e buscar equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

No mês do Janeiro Branco, campanha dedicada à saúde mental, pequenas ações diárias já geram impacto significativo. Em 15 minutos é possível cuidar da saúde mental. Meditar, caminhar, ouvir música relaxante ou ter um momento de lazer ajuda a manejar o estresse. Sono, alimentação, atividade física e gestão do estresse são pilares fundamentais.

O maior desafio do Brasil nos próximos anos é mudar o foco do cuidado em saúde mental. É preciso sair de um modelo centrado apenas na crise e na doença e avançar para a prevenção e a promoção do bem-estar em todos os níveis da sociedade. Reduzir o estigma ainda é urgente — e coletivo.

G

Por Guilherme Cavalcanti

psicólogo, parceiro da SegMedic

Artigo de opinião

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